{"id":5187,"date":"2023-09-02T21:11:08","date_gmt":"2023-09-02T21:11:08","guid":{"rendered":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/?post_type=portfolio&#038;p=5187"},"modified":"2026-06-12T16:50:55","modified_gmt":"2026-06-12T16:50:55","slug":"sistema-economico-hegemonico","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/sistema-economico-hegemonico\/","title":{"rendered":"Sistema econ\u00f3mico hegem\u00f3nico"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_custom_heading text=&#8221;Sistema econ\u00f3mico hegem\u00f3nico:&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_custom_heading text=&#8221;um puzzle a desmontar&#8221; font_container=&#8221;tag:h2|font_size:35|text_align:left|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1693851247429{padding-top: 10px !important;}&#8221;]<strong>CIDAC<\/strong><\/p>\n<p>Tempo aproximado de leitura: 31 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><strong>O capital \u00e9<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: right;\">correr atrav\u00e9s de siderais espa\u00e7os comerciais infinitos<br \/>\nas cores a trincar o preto dos p\u00e9s, a cabe\u00e7a um zoado infernal<br \/>\nde cheiros.<br \/>\nloja ap\u00f3s loja um hiperlink uma metatag uma gota<br \/>\n(n\u00e3o sei se o capital ocupou o universo,<br \/>\nmas j\u00e1 lhe instalou software e pop-ups).<br \/>\nvocifera: luzes, a\u00e7\u00e3o.<br \/>\no capital \u00e9 artesanal:<br \/>\np\u00e3o para levedar\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 gourmet<br \/>\nsoufl\u00ea de casas\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 crash sourbet.<br \/>\n\u00e9 multitasking:<br \/>\nengole \u00e1gua, cospe armas, vende como fogo de artif\u00edcio.<br \/>\n(\u00e0s vezes fogo de artificio<br \/>\noutras banho de sangue)<br \/>\no capital \u00e9<br \/>\no capital \u00e9 absurdo<br \/>\no capital \u00e9 o absurdo<br \/>\no capital \u00e9 o absurdo lugar<br \/>\nonde tirar f\u00e9rias \u00e9 ir \u00e0s compras de nada e vender uma cidade<br \/>\naos abutres,<br \/>\nmorrer de frio para poupar na eletricidade,<br \/>\ne consumir noventa e nove corpos s\u00f3 de ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">prima a op\u00e7\u00e3o um,<br \/>\nvamos gravar,<br \/>\na seguir desligue.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: right;\">Judite Canha Fernandes (2017)<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5388&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1693859935569{padding-top: 50px !important;}&#8221;][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para falarmos de \u201c<strong>sistema econ\u00f3mico hegem\u00f3nico<\/strong>\u201d poder\u00e1 ser \u00fatil come\u00e7ar por desmontar a express\u00e3o e procurar o significado de cada palavra. \u2018<strong>Sistema<\/strong>\u2019 pode ser entendido como um conjunto de elementos ligados e interdependentes, uma estrutura dotada de relativo equil\u00edbrio de longo prazo, que opera num determinado contexto e que com ele pode interagir. De notar que organizar a leitura do mundo de forma sist\u00e9mica corresponde a uma representa\u00e7\u00e3o desenvolvida no quadro de alguns campos de conhecimento ocidentais, que procuram, em maior ou menor medida, a interdisciplinariedade e a integra\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios conhecimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018<strong>Economia<\/strong>\u2019, do grego \u201coikonomos\u201d, significava, no contexto hist\u00f3rico grego, as regras que regiam ou deviam reger a gest\u00e3o da casa ou da comunidade, as atividades que tinham por fim obter recursos para a vida e para o conforto da fam\u00edlia, da casa ou do conjunto de cidad\u00e3s\/os. Esta vis\u00e3o de economia manteve-se ao longo da hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f3mico, embora com muitos matizes. Assim, de forma b\u00e1sica, podemos dizer que a economia tem a ver com as formas e os recursos necess\u00e1rios para colmatar as necessidades humanas, indo desde um n\u00edvel individual ao n\u00edvel macro (pa\u00edses, regi\u00f5es, mundo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sistema econ\u00f3mico ou sistemas econ\u00f3micos s\u00e3o, assim, um conjunto de elementos interdependentes, estruturados, que visam colmatar as necessidades dos seres humanos atrav\u00e9s da gest\u00e3o dos recursos existentes. Estes sistemas t\u00eam variado ao longo do tempo e no espa\u00e7o geogr\u00e1fico e s\u00e3o resultado de processos longos conduzidos pelos seres humanos. Alguns sistemas ficaram localizados, alguns sucumbiram dando lugar a novos, outros expandiram-se no tempo e no espa\u00e7o, tornando-se\u2026 hegem\u00f3nicos. \u00c9 o caso do sistema econ\u00f3mico que envolve as nossas vidas nos \u00faltimos cinco s\u00e9culos. Porque o chamamos de hegem\u00f3nico? Diz-se hegem\u00f3nico algo ou algu\u00e9m que exerce poder, dom\u00ednio ou supremacia pol\u00edtica, econ\u00f3mica, ideol\u00f3gica sobre outros de forma (quase) inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este sistema econ\u00f3mico \u00e9 apelidado com v\u00e1rios nomes, que correspondem a sentidos distintos mas conexos:\u00a0<strong>capitalista<\/strong>,\u00a0<strong>economia de mercado<\/strong>,\u00a0<strong>neoliberal<\/strong>,\u00a0<strong>global<\/strong>\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entender um sistema fruto de s\u00e9culos de desenvolvimento e transforma\u00e7\u00e3o, a sua forma de funcionamento, o seu impacto na vida dos seres vivos n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, tal como dificilmente conseguimos visualizar todas as pe\u00e7as de um grande puzzle. Isto, n\u00e3o s\u00f3 pela sua imbrica\u00e7\u00e3o nas dimens\u00f5es social, cultural, pol\u00edtica e ecol\u00f3gica, como pelo facto de todas estas dimens\u00f5es nos serem, geralmente, transmitidas de forma compartimentada. Precisamos, ent\u00e3o, desmontar o puzzle! Para isso iremos mobilizar v\u00e1rias palavras, algumas que j\u00e1 evoc\u00e1mos, como \u201cnecessidades\u201d e \u201crecursos\u201d, e outras como: trabalho, propriedade, tecnologia, produ\u00e7\u00e3o, consumo, distribui\u00e7\u00e3o, lucro, capital.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1693867888776{padding-top: 50px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243; css=&#8221;.vc_custom_1693860492786{padding-top: 10px !important;}&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos pela especificidade deste sistema econ\u00f3mico, que \u00e9 a <strong>acumula\u00e7\u00e3o infinita do chamado \u201ccapital\u201d<\/strong>, capital esse que pode ter uma natureza material ou imaterial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se chega a essa acumula\u00e7\u00e3o? Tomando o sistema econ\u00f3mico como um conjunto de elementos interdependentes e estruturados, que visam colmatar as necessidades dos seres humanos atrav\u00e9s da gest\u00e3o dos recursos existentes, o sistema capitalista foi germinando, ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos, a partir dos sistemas que o antecederam. Essa germina\u00e7\u00e3o aconteceu atrav\u00e9s de diferentes fen\u00f3menos. A <strong>mercantiliza\u00e7\u00e3o<\/strong> do que chamamos \u201crecursos\u201d, que s\u00e3o aquilo que a natureza d\u00e1 (a \u00e1gua, a terra, as plantas, os peixes, o ar, os min\u00e9rios, \u2026); dos mecanismos que os seres humanos inventaram para transformar a natureza noutros produtos (que podem ir do arado aos computadores), os chamados \u201cmeios de produ\u00e7\u00e3o\u201d; do trabalho, ou seja, da energia, tempo e for\u00e7a que os seres humanos usam para transformar a natureza noutros produtos; e da moeda, que corresponde \u00e0 codifica\u00e7\u00e3o de um valor abstrato que substitui a troca direta de bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mercantilizar significa que qualquer uma destas coisas \u00e9 pass\u00edvel de ser vendida e comprada. E para tal passam por um processo de <strong>privatiza\u00e7\u00e3o<\/strong> e de \u201c<strong>coisifica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d ou objetiva\u00e7\u00e3o. Ou seja, os seres humanos, a \u00e1gua, o ar n\u00e3o s\u00e3o a priori de ningu\u00e9m, a menos que vejamos o planeta Terra como propriedade natural apenas destes seres. Privatiz\u00e1-los passa por um processo de cria\u00e7\u00e3o de mecanismos que est\u00e3o ligados \u00e0 cultura, por exemplo, no chamado \u201cOcidente\u201d esses mecanismos foram a cria\u00e7\u00e3o do Direito romano e a no\u00e7\u00e3o de propriedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para naturalizar estes processos, para que todas as pessoas os deem por \u00f3bvios, necess\u00e1rios e \u2026 naturais, deu-se um outro: a <strong>desvincula\u00e7\u00e3o afetiva<\/strong> entre seres humanos e esses \u201crecursos\u201d, a sua objetiva\u00e7\u00e3o. Um outro fen\u00f3meno foi a <strong>desvincula\u00e7\u00e3o entre as atividades produtivas e os meios materiais<\/strong> que as permitem. A industrializa\u00e7\u00e3o, inclusive a industrializa\u00e7\u00e3o da atividade agr\u00e1ria, favoreceu essa desvincula\u00e7\u00e3o. Pouco a pouco, a popula\u00e7\u00e3o dependente de um sal\u00e1rio pago por outrem, ou seja, que tem de vender o seu trabalho para suprir as suas necessidades, foi crescendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, algumas pessoas foram adquirindo a propriedade desses meios, que podem ser materiais ou imateriais. Fizeram-no e fazem-no de forma direta, comprando por exemplo maquinaria e montando uma f\u00e1brica, ou indiretamente, atrav\u00e9s da aquisi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es de empresas, sem deter necessariamente uma f\u00e1brica ou uma empresa inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes\/as propriet\u00e1rios\/as retiram lucro da diferen\u00e7a entre as receitas resultantes da venda de produtos ou servi\u00e7os e os gastos (pagamento de sal\u00e1rios, por exemplo) decorrentes do processo produtivo. Isto porque, a transforma\u00e7\u00e3o de recursos, atrav\u00e9s do trabalho, em novos produtos cria um novo valor. Mas, sobretudo, nesse processo produtivo h\u00e1 uma parte do valor resultante do trabalho que n\u00e3o \u00e9 remunerado, a chamada<strong> mais-valia<\/strong>. Ou seja, os e as trabalhadoras realizam mais valor do que aquele pelo qual s\u00e3o remunerados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo destas pessoas (ou empresas ou outras entidades) \u00e9 aumentar incessantemente o lucro. Para alimentar a <strong>maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros<\/strong> e a acumula\u00e7\u00e3o de capital (que poderemos chamar de \u201criqueza\u201d), estas pessoas buscam incessantemente novas fontes de recursos e de trabalho baratas. Isso conduz a dois tipos de movimento: o de <strong>expans\u00e3o<\/strong>, que foi ganhando corpo a partir do s\u00e9culo XV (que diz respeito a dois processos hist\u00f3ricos, o colonialismo e a globaliza\u00e7\u00e3o); e, por outro lado, o de <strong>deslocaliza\u00e7\u00e3o<\/strong> das unidades de produ\u00e7\u00e3o sempre que os lucros esperados compensem os gastos em deslocaliz\u00e1-la. Estes mecanismos de expans\u00e3o v\u00e3o assim <strong>integrando<\/strong> \u2013 em diferentes formas e medidas e com diferentes prop\u00f3sitos \u2013 pessoas e recursos. De tal modo que, na atualidade, poucos ser\u00e3o os lugares no mundo que n\u00e3o fazem parte do sistema, que o servem ou lhe s\u00e3o \u00fateis, de algum modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243; css=&#8221;.vc_custom_1693867831728{padding-top: 10px !important;}&#8221;][vc_video link=&#8221;https:\/\/vimeo.com\/68605682?embedded=true&#038;source=vimeo_logo&#038;owner=11543171&#8243; align=&#8221;center&#8221;][vc_custom_heading text=&#8221;Confer\u00eancia: Crise e reconfigura\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do Sistema-Mundo. Com Immanuel Wallerstein&#8221; font_container=&#8221;tag:h4|text_align:justify|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este v\u00eddeo \u00e9 uma s\u00edntese das ideias apresentadas por Immanuel Wallerstein na confer\u00eancia \u201cCrise e reconfigura\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do Sistema-Mundo\u201d organizada pelo CIDAC a 14 de fevereiro de 2013, no \u00e2mbito do projeto &#8220;Contraponto &#8211; leituras plurais do mundo, os modelos de desenvolvimento em quest\u00e3o&#8221; que visa trazer para o debate na sociedade portuguesa, diferentes modelos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1693850853487{padding-top: 50px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas detentoras de capital t\u00eam sido e s\u00e3o, por\u00e9m, uma minoria. O que acontece \u00e0 vasta maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial? Trabalha. Trabalhar pode ir desde recolher fruta de \u00e1rvores para alimento b\u00e1sico, extrair min\u00e9rio de minas ou costurar um casaco, at\u00e9 fazer an\u00e1lises laboratoriais, etc. No sistema capitalista, convivem diferentes formas de\u00a0<strong>trabalho<\/strong>: independente, assalariado, escravo, formal, informal, em diferentes \u00e1reas e contextos. Mas para que serve o trabalho? Porque temos de trabalhar? Em princ\u00edpio, trabalhamos para conseguir um rendimento para\u2026 cobrir necessidades. Quem define a forma do nosso trabalho? E que necessidades s\u00e3o essas? Regra geral, o trabalho, mesmo para trabalhadores\/as independentes, n\u00e3o \u00e9 ditado pelas pr\u00f3prias pessoas e as necessidades a cobrir pelo rendimento que auferem v\u00e3o muito al\u00e9m de necessidades b\u00e1sicas, como garantir alimento. Assim, por um lado, o sistema capitalista, criou uma\u00a0<strong>massa assalariada<\/strong>\u00a0e, por outro,\u00a0<strong>mercados<\/strong>\u00a0para os produtos que s\u00e3o produzidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transforma\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o em pessoas assalariadas \u2013 a\u00a0<strong>proletariza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u2013 foi importante para criar um conjunto de pessoas dependentes de outras, perdendo autonomia relativamente \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do seu rendimento. O seu trabalho chama-se\u00a0<strong>assalariado<\/strong>, porque depende de um sal\u00e1rio, e\u00a0<strong>formal<\/strong>, porque com as lutas sucessivas de trabalhadores\/as se foram conseguindo direitos e v\u00ednculos laborais. Estes processos est\u00e3o tamb\u00e9m eles intimamente ligados \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, mas v\u00e3o al\u00e9m dela, porque nem todas as pessoas no mundo deixaram de ser agricultoras, abandonando o mundo rural \u2013 num fen\u00f3meno muitas vezes naturalizado como foi e continua a ser o \u201c\u00eaxodo rural\u201d \u2013 ou deixaram a economia dita dom\u00e9stica para trabalharem tamb\u00e9m fora de casa. Muitas acumularam esses diferentes tipos e formas de rela\u00e7\u00e3o com o trabalho \u2013 assalariado e n\u00e3o assalariado \u2013 algo que \u00e9, geralmente, denominado de\u00a0<strong>semiproletariza\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A semiproletariza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mundial foi e continua a ser importante para manter sal\u00e1rios baixos e, sobretudo, para manter uma grande parte de tarefas de cuidado e de reprodu\u00e7\u00e3o \u2013 como cozinhar, cuidar dos filhos e filhas, cuidar das pessoas de idade avan\u00e7ada, \u2026 \u2013 o chamado trabalho reprodutivo, realizado maioritariamente por mulheres, sem custos para o sistema. Ainda que o sistema capitalista tenha vindo a mercantilizar tamb\u00e9m as atividades reprodutivas, criando novos mercados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para baixar ainda mais os custos do trabalho formal, surgiu, nas d\u00e9cadas de 70-80 do s\u00e9c. XX, com alguma express\u00e3o, um outro fen\u00f3meno: a\u00a0<strong>precariza\u00e7\u00e3o<\/strong>. As pessoas trabalham para outrem, mas sem v\u00ednculos contratuais e, geralmente, acartam com os custos dos meios de produ\u00e7\u00e3o sem com isso conseguir autonomia. Pensemos, por exemplo, em quem trabalha a recibos verdes ou nos\/nas trabalhadores\/as \u201cuberizados\/as\u201d ou \u201cde plataforma\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto as pessoas assalariadas (prec\u00e1rias ou n\u00e3o, muitas com trabalhos sup\u00e9rfluos) como as que n\u00e3o auferem um sal\u00e1rio formal t\u00eam uma carater\u00edstica comum: consomem. \u00c9 fundamental ao sistema que as pessoas tenham a possibilidade de consumir bens ou servi\u00e7os, o que \u00e9 facilitado por um outro mecanismo: o acesso ao<strong>\u00a0cr\u00e9dito ao consumo<\/strong>\u00a0(desde os cart\u00f5es dos supermercados ao cr\u00e9dito para compra de casa), de modo a garantir a<strong>\u00a0circula\u00e7\u00e3o de capital<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entra aqui uma outra pe\u00e7a do puzzle: a\u00a0<strong>divis\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e consumo<\/strong>, acentuada pela industrializa\u00e7\u00e3o. Ainda que todas as pessoas, de algum modo, sejam produtoras e consumidoras, esta distin\u00e7\u00e3o cultural e econ\u00f3mica \u00e9 fundamental uma vez mais para quebrar a dimens\u00e3o de autonomia face ao todo. As pessoas s\u00e3o consumidoras de qu\u00ea? De produtos e servi\u00e7os para cobrir necessidades b\u00e1sicas, mas tamb\u00e9m de produtos e servi\u00e7os para cobrir\u00a0<strong>necessidades inventadas e promovidas<\/strong>. Essa inven\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para responder a outra faceta do sistema: o aumento constante da produ\u00e7\u00e3o ou\u00a0<strong>produtivismo<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra pe\u00e7a importante, ligada ao produtivismo, \u00e9 a ideia de\u00a0<strong>inova\u00e7\u00e3o<\/strong>, que transmite uma no\u00e7\u00e3o de andar em frente, de\u00a0<strong>crescimento<\/strong>, justificada, geralmente, pela busca da melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida. A inova\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, porque implica a substitui\u00e7\u00e3o perene de bens e servi\u00e7os, tornando-os rapidamente obsoletos ou simplesmente programando-os para se estragarem e necessitarem de ser substitu\u00eddos por novos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter inovador \u00e9 aplicado n\u00e3o s\u00f3 aos processos produtivos, mas \u00e0s pr\u00f3prias pessoas. O sujeito no capitalismo tem de ter um\u00a0<strong>esp\u00edrito livre<\/strong>,\u00a0<strong>criativo<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>empreendedor<\/strong>, que faz a m\u00e1quina caminhar at\u00e9\u2026 n\u00e3o se se sabe bem onde. A inova\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria porque estas pessoas e as suas empresas competem umas com as outras para obterem mais vendas, mais servi\u00e7os, logo t\u00eam de apresentar novidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro lado desta moeda \u00e9 o lado cultural: a inven\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>publicidade e do entretenimento comercial<\/strong>, que foi introduzida nas r\u00e1dio-novelas, no cinema at\u00e9 \u00e0s s\u00e9ries nas plataformas de streaming, passando pelas redes sociais \u2013 as reais e as virtuais, pela rua\u2026 Estimulam-se gostos, modas, fantasias. Criam-se necessidades, criam-se mercados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mercado<\/strong>\u00a0\u00e9 outra express\u00e3o marcante deste sistema econ\u00f3mico, mas n\u00e3o \u00e9 uma especificidade sua. Mercados existiram ao longo da hist\u00f3ria, geralmente, como lugares f\u00edsicos onde as pessoas se encontram, umas para vender, outras para comprar, o que podemos chamar de encontro entre a oferta e a procura. Para que essas transa\u00e7\u00f5es existam \u00e9 necess\u00e1rio encontrarem um valor. Os mercados s\u00e3o assim o lugar onde se define valor para mercadorias ou servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a \u00e9 que, no sistema capitalista, o mercado pode deixar de ser f\u00edsico e passar a ter uma natureza et\u00e9rea. A base do sistema econ\u00f3mico deixa \u2013 aparentemente \u2013 de ser a f\u00e1brica, os campos, a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o material, para serem as bolsas, as a\u00e7\u00f5es, os dados. H\u00e1 igualmente uma aparente desmaterializa\u00e7\u00e3o do lucro, que n\u00e3o resulta tanto da extra\u00e7\u00e3o do valor do trabalho e dos recursos, mas da especula\u00e7\u00e3o sobre um valor que ningu\u00e9m sabe bem o que \u00e9. Onde quem mais ganha poder\u00e1 j\u00e1 n\u00e3o ser o\/a detentor\/a dos meios de produ\u00e7\u00e3o, do trabalho e dos recursos, mas o ou a gestora, o CEO, a pessoa ou a empresa que det\u00e9m a\u00e7\u00f5es, cr\u00e9ditos, fundos, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes mercados t\u00eam vontades, crises, desejos, emo\u00e7\u00f5es, parecendo at\u00e9 que os seres humanos deixaram de existir dentro dessa realidade. S\u00e3o sujeitos que competem com outros sujeitos-mercados, sujeitos impessoais que subordinam a sociedade aos seus desejos e disposi\u00e7\u00f5es. Estes fen\u00f3menos marcam a passagem do chamado \u201cmercantilismo\u201d para o capitalismo financeiro.<br \/>\nDizemos que a desmaterializa\u00e7\u00e3o do lucro \u00e9 aparente, ou pelo menos \u00e9 parcial, porque a base material destes processos mant\u00e9m-se. S\u00e3o necess\u00e1rias baterias, computadores, geradores, e para tal \u00e9 preciso \u00e1gua, minerais, combust\u00edvel f\u00f3ssil ou renov\u00e1vel\u2026 A l\u00f3gica produtiva perde import\u00e2ncia face \u00e0 l\u00f3gica financeira e especulativa, mas n\u00e3o desaparece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0<strong>financeiriza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0do sistema econ\u00f3mico hegem\u00f3nico aconteceu de forma c\u00edclica, apoiada por entidades que hoje conhecemos como bancos, tendo-se tornado, por\u00e9m, na contemporaneidade uma faceta estruturante do capitalismo. Ao n\u00edvel dos Estados, para al\u00e9m dos bancos, duas organiza\u00e7\u00f5es internacionais t\u00eam sido fulcrais para esta etapa do sistema: o Banco Mundial e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 que tem\u00a0<strong>valor<\/strong>\u00a0neste sistema? A que \u00e9 que damos valor? O valor \u00e9 algo subjetivo, porque nem todas pessoas atribuem igual valor \u00e0s mesmas coisas. Mas algumas coisas t\u00eam um valor em si mesmas, pela import\u00e2ncia que t\u00eam, uma vez mais ligadas \u00e0s necessidades humanas: o alimento, a casa, por exemplo. Nos mercados f\u00edsicos, as pessoas trocavam, primeiro, de forma direta, e mais tarde de forma indireta atrav\u00e9s de moeda, em sistemas de valor muito localizados e ligados ao seu sistema cultural, social\u2026 Com a industrializa\u00e7\u00e3o, com a sociedade de servi\u00e7os e de informa\u00e7\u00e3o, com o surgimento dos Estados, o sistema de trocas foi-se complexificando. A troca \u2013 que \u00e9 em si uma rela\u00e7\u00e3o social porque implica pelo menos duas pessoas \u2013 e a atribui\u00e7\u00e3o de valor que a medeia foram-se alterando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As moedas tornaram-se a intermedia\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es indiretas, de troca entre produtos e servi\u00e7os de natureza diferente. Por exemplo, a moeda serve para \u201ctrocar\u201d horas de trabalho por batatas\u2026 A moeda s\u00f3 tem valor se tal lhe for atribu\u00eddo e tem uma base material que a suporta. Durante muitos s\u00e9culos, essa base material foi o ouro. O padr\u00e3o-ouro foi depois substitu\u00eddo pelo padr\u00e3o-libra e, hoje, existem outras moedas que servem de padr\u00e3o (de suporte), das quais se evidencia o d\u00f3lar. O valor da moeda (cunhada por Estados ou regi\u00f5es, no caso do Euro) \u00e9 decidido na base do valor total que um Estado ou conjunto de Estados t\u00eam no sistema econ\u00f3mico internacional e, em alguma medida, pode ser decidido pelas suas institui\u00e7\u00f5es, bem como pelos mercados financeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas estas dimens\u00f5es parecem corresponder \u00e0s necessidades de um sistema cada vez mais integrado, mais alargado, na sua busca de uma vida melhor para todas as pessoas. \u00c9 real a melhoria das condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de vida (nutri\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida, etc.) para uma parte da popula\u00e7\u00e3o do planeta, bem como o crescimento demogr\u00e1fico exponencial a que temos assistido nas \u00faltimas d\u00e9cadas. No entanto, todos os fen\u00f3menos acima descritos t\u00eam assentado igualmente no crescimento do\u00a0<strong>individualismo<\/strong>\u00a0e da atomiza\u00e7\u00e3o social, na\u00a0<strong>concentra\u00e7\u00e3o da riqueza<\/strong>\u00a0nas m\u00e3os de uma parte reduzida da popula\u00e7\u00e3o mundial e, por conseguinte, no avolumar das desigualdades socioecon\u00f3micas em todo o mundo. E, apesar da filosofia dominante (o\u00a0<strong>liberalismo<\/strong>\u00a0e, mais recentemente, o\u00a0<strong>neoliberalismo<\/strong>) postular que a\u00a0<strong>competi\u00e7\u00e3o livre<\/strong>\u00a0entre mercados e entre seres humanos \u00e9 o que permite o crescimento da riqueza e, por acr\u00e9scimo, a melhoria da vida das pessoas, nem esta \u00faltima \u00e9 totalmente real nem os mercados nem os seres humanos s\u00e3o totalmente livres e soltos das amarras da economia capitalista. E, sobretudo, este sistema assenta mais na inseguran\u00e7a e na crise constante do que na certeza e no conforto que os mercados supostamente criariam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vemos em qualquer setor econ\u00f3mico e financeiro \u00e9 n\u00e3o a livre competi\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es empreendedoras e inovadoras, em mercados perfeitos que geram sucessivamente melhores produtos e servi\u00e7os, mas\u00a0<strong>empresas que controlam as cadeias<\/strong>\u00a0de produtos e servi\u00e7os da produ\u00e7\u00e3o \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o, dentro de um determinado setor ou transversais a v\u00e1rios setores, uma concentra\u00e7\u00e3o empresarial que conduz \u00e0 oligopoliza\u00e7\u00e3o da economia. Existem institui\u00e7\u00f5es que dizem velar pela livre concorr\u00eancia e pela n\u00e3o oligopoliza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de regula\u00e7\u00e3o, enquanto outras apoiam, atrav\u00e9s de fundos p\u00fablicos, esses mesmos processos de concentra\u00e7\u00e3o. Ouvimos falar regularmente em algumas dessas institui\u00e7\u00f5es, como a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio ou a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia, ou de tratados internacionais de com\u00e9rcio, que alegam manter o com\u00e9rcio livre entre Estados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui surge uma outra pe\u00e7a do puzzle, ali\u00e1s\u2026 duas: a\u00a0<strong>filosofia pol\u00edtica<\/strong>\u00a0ou ideologia e o papel e lugar dos sistemas pol\u00edticos e suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1693850853487{padding-top: 50px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_custom_heading text=&#8221;Sociedade, cultura, pol\u00edtica, ideologia \u2013 o sistema econ\u00f3mico n\u00e3o est\u00e1 isolado&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento do sistema econ\u00f3mico capitalista, como de qualquer outro tipo de sistema constru\u00eddo por seres humanos, \u00e9, como dissemos anteriormente, uma constru\u00e7\u00e3o imbricada nas dimens\u00f5es social, cultural, filos\u00f3fica, pol\u00edtica, ecol\u00f3gica. Podemos colocar a \u00eanfase determin\u00edstica mais numa ou noutra dimens\u00e3o, mas dificilmente podemos dizer qual nasceu primeiro. O que \u00e9 importante \u00e9 relevar que as ideias, valores e princ\u00edpios imperantes conferem justifica\u00e7\u00e3o e legitimidade a a\u00e7\u00f5es de natureza econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Veja-se, por exemplo, a doutrina filos\u00f3fica e religiosa que justificou a subtra\u00e7\u00e3o da natureza humana \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ditas ind\u00edgenas, um pouco por todo o mundo, para \u201cpermitir\u201d a escravatura, o dom\u00ednio, enfim, a coloniza\u00e7\u00e3o. Na Europa, a filosofia pol\u00edtica que coadjuvou o sistema capitalista foi o liberalismo. Dizemos filosofia pol\u00edtica porque cont\u00e9m uma vis\u00e3o de sociedade e de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da mesma. Capitalismo, liberalismo e Estado s\u00e3o o trip\u00e9 que organiza grande parte da vida, pelo menos na Europa, h\u00e1 dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capitalismo e liberalismo fixam o papel que o Estado e o sistema econ\u00f3mico devem ter e como se relacionam. O Estado assegura uma regula\u00e7\u00e3o m\u00ednima do sistema econ\u00f3mico, a seguran\u00e7a interna e externa, mant\u00e9m o consumo alto e o n\u00edvel de conflitualidade social baixo. Nos anos 70-80 do s\u00e9culo passado, na Inglaterra e nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, desenvolveu-se uma nova corrente de pensamento, o neoliberalismo, que elevou ainda mais esse ideal: todos os setores da vida (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, energia, etc.) deveriam ser privatizados, \u00e0 semelhan\u00e7a do que j\u00e1 acontecia em alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, como no Chile.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a essa lenta e gradual privatiza\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida que assistimos um pouco por todo o mundo. Por\u00e9m, essa privatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe sem o apoio direto ou indireto dos Estados e o contributo das\/dos suas\/seus cidad\u00e3s\/os. O Estado financia os indiv\u00edduos empreendedores e as empresas diretamente, atrav\u00e9s da atribui\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios e subven\u00e7\u00f5es, e, indiretamente, atrav\u00e9s da baixa taxa\u00e7\u00e3o do rendimento do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o sistema capitalista n\u00e3o convive ou conviveu apenas com a ideologia liberal ou neoliberal. No seu desenvolvimento e alargamento, foi-se relacionando \u2013 e abarcando \u2013 com diferentes ideologias e regimes pol\u00edticos. Assistimos, por exemplo, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de regimes ditos socialistas ou comunistas em regimes que promovem \u201co capitalismo de Estado\u201d. E mesmo os regimes que defendem ideologias distintas do liberalismo no que diz respeito \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, n\u00e3o deixam de perfilhar, enquanto ideal econ\u00f3mico, o progresso, o crescimento infinito, a industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, dificilmente podemos falar de um sistema econ\u00f3mico isoladamente, porque a economia \u00e9 uma forma de rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos, n\u00e3o \u00e9 um sistema abstrato e acima de n\u00f3s, com uma exist\u00eancia em si mesma, seja o sistema capitalista ou qualquer outro. Olhar e tentar entender rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas passa por olhar e entender outras dimens\u00f5es da vida: as rela\u00e7\u00f5es sociais, culturais, pol\u00edticas, a filosofia e os sistemas de valores e normas vigentes, a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a ecologia\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o da cultura e do conhecimento \u00e9 vasta, passa pela cria\u00e7\u00e3o de um sistema de valores, de vis\u00f5es do mundo, do tempo, do espa\u00e7o e vis\u00f5es sobre o Outro. O sistema capitalista est\u00e1 fortemente imbu\u00eddo do esp\u00edrito da linearidade do tempo. Progresso, moderniza\u00e7\u00e3o, crescimento, desenvolvimento s\u00e3o algumas das palavras que exprimem esse esp\u00edrito. As pessoas que n\u00e3o abra\u00e7am esse ideal s\u00e3o consideradas atrasadas e conservadoras. Pensemos, por exemplo, na forma como os e as camponesas passaram a ser vistas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O seu conhecimento, bem como o de todas as pessoas que n\u00e3o fazem o percurso acad\u00e9mico canonizado, foi qualificado como \u201cemp\u00edrico\u201d, \u201ctradicional\u201d. Conhecimento esse rebaixado para segundo plano na hierarquia (ou seja, no valor que lhe \u00e9 dado) social, cultural, econ\u00f3mica. A subalternidade \u2013 condi\u00e7\u00e3o da pessoa dominada \u2013 de pessoas, coisas e conhecimentos \u00e9 intr\u00ednseca ao sistema capitalista. A natureza \u00e9 uma coisa que se pode ter, dominar, tal como s\u00e3o os corpos de pessoas (das mulheres, das pessoas racializadas). E essa rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o e de propriedade \u00e9 justificada n\u00e3o s\u00f3 por um sistema de valores, mas tamb\u00e9m por um sistema de normas, no caso do dito Ocidente pelo Direito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse esquema de valores assenta tamb\u00e9m na ideia de racionalidade cient\u00edfica \u2013 consagrada pela escola de pensamento cartesiana \u2013 que se tornou um dogma inatac\u00e1vel, para a maioria da sociedade. A objetividade, a neutralidade e a especializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas pilares dessa racionalidade. A objetividade e a neutralidade ofuscam a perce\u00e7\u00e3o de parcialidade e de posicionamento ideol\u00f3gico, para que se acredite que qualquer processo \u2013 econ\u00f3mico ou outro \u2013 \u00e9 isento. A especializa\u00e7\u00e3o, defendida como importante para o aumento da produtividade dos seres humanos, parcela a nossa vis\u00e3o do todo em que vivemos. Especialistas numa coisa, cegos para outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes aspetos afetam tamb\u00e9m a forma como encaramos\u2026 a economia. Embora seja, no fundo, uma rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos e entre estes e a natureza, em que os primeiros usam \u2013 de forma mais ou menos abusiva \u2013 a segunda, para colmatar as suas necessidades \u2013 mais ou menos b\u00e1sicas \u2013 a complexifica\u00e7\u00e3o deste conjunto de rela\u00e7\u00f5es e a conce\u00e7\u00e3o da economia como um campo cient\u00edfico retiraram \u00e0s pessoas n\u00e3o-especialistas a possibilidade de ler, perceber e logo de modificar, se assim o entenderem, as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas de que fazem parte. Quando muito vemos (e vivemos) as manifesta\u00e7\u00f5es \u2013 as pontas do iceberg \u2013 mas n\u00e3o o sistema, embora muitas vezes digamos que \u201ca culpa \u00e9 do sistema\u201d. A economia \u00e9 um campo de valores e de ideologias, mas \u00e9 retratada e concebida como uma ci\u00eancia neutra feita de leis \u201cnaturais\u201d como, por exemplo, a lei da oferta e da procura, ou o crescimento, medido por conceitos t\u00e9cnicos e restritos como o c\u00e9lebre PIB (Produto Interno Bruto).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conce\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica e especialista de algo inerente \u00e0 nossa vida, retira-nos a capacidade e a possibilidade cr\u00edtica sobre a mesma, isto \u00e9, a dimens\u00e3o pol\u00edtica inerente \u00e0s escolhas. Esta conce\u00e7\u00e3o \u2013 hegem\u00f3nica \u2013 de economia \u00e9, assim, tamb\u00e9m ela uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, resultante n\u00e3o somente da ace\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica do conhecimento como do pr\u00f3prio liberalismo e que se corporizou naquela que \u00e9 considerada a escola cl\u00e1ssica da economia. No entanto, apesar de hegem\u00f3nica, existem outras conce\u00e7\u00f5es de economia, mesmo no \u201cOcidente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim&#8230; a crise. Quantas vezes na nossa vida ouvimos falar de crise? Saltamos de crise em crise: seremos pessoas azaradas? A cont\u00ednua produ\u00e7\u00e3o de artefactos, de servi\u00e7os, de capital especulativo \u2013 justificada pela cria\u00e7\u00e3o artificial de escassez e de necessidades \u2013 gera ciclicamente momentos em que o pr\u00f3prio sistema econ\u00f3mico ou n\u00e3o consegue escoar produtos (por via do consumo ou outro) ou n\u00e3o tem capital material correspondente ao capital financeiro especulativo (por exemplo, as bolhas do imobili\u00e1rio). Cada crise tende a ser o g\u00e9rmen de novas formas de produ\u00e7\u00e3o (material ou especulativa), o que faz surgir novos ciclos econ\u00f3micos. Assim, as crises s\u00e3o a regra do sistema capitalista.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas temos que destacar tr\u00eas aspetos. Um, a crise econ\u00f3mica \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o permanente e n\u00e3o excecional. Dois, \u00e0s crises econ\u00f3micas est\u00e3o associadas crises de outra natureza: crise ecol\u00f3gica, manifestada na diminui\u00e7\u00e3o da biodiversidade, nas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, entre muitas outras manifesta\u00e7\u00f5es; crise alimentar, manifestada na falta cr\u00f3nica de alimentos para uns e na alimenta\u00e7\u00e3o pouco nutritiva e em excesso, para outros; crise social, manifestada como j\u00e1 sublinhado nas desigualdades estruturantes que servem o sistema, na viol\u00eancia racista, \u00e9tnica, sexista. Estas crises s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es, mas s\u00e3o tamb\u00e9m linhas estruturantes do sistema capitalista. Em si mesmas e isoladas podem n\u00e3o ser novidade na exist\u00eancia humana, mas o cruzamento de todas elas parece ser algo relativamente novo no Planeta, uma esp\u00e9cie de autofagia deliberada e consciente. E, tr\u00eas, as crises econ\u00f3micas t\u00eam um substrato real, mas, do ponto de vista simb\u00f3lico, s\u00e3o igualmente \u00fateis ao sistema, porque criam medo, criam fantasmas, criam um clima de instabilidade perene que torna os seres humanos vulner\u00e1veis, por exemplo, a ideologias sociopol\u00edticas xen\u00f3fobas ou a um maior controle social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, todos os sistemas, mesmo os mais hegem\u00f3nicos, n\u00e3o o s\u00e3o na totalidade. As brechas existem e sempre existiram. Podemos v\u00ea-las de duas perspetivas: uma, enquanto \u00fateis ao sistema, como j\u00e1 dissemos, a economia dita \u201cinformal\u201d ou a chamada \u201csemiproletariza\u00e7\u00e3o\u201d, que aconteceu, por exemplo, no centro e norte de Portugal, em que a popula\u00e7\u00e3o ainda camponesa, trabalhou parcialmente na ind\u00fastria. Ou noutra, como formas de resist\u00eancia do ponto de vista te\u00f3rico ou pr\u00e1tico ao sistema, por parte de pessoas, grupos, coletivos. Mas, para vermos essas brechas, precisamos de outras lentes, de outras sensibilidades, pois o sistema de valores e de pr\u00e1ticas socioecon\u00f3micas em que vivemos coloca-as \u00e0 margem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m de tentarmos ver essas brechas, segue sendo importante questionarmo-nos como e porque \u00e9 que este sistema \u2013 um metabolismo que suga energia e recursos materiais de todos os cantos do planeta, expandindo as rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o entre seres humanos e entre estes e a Terra \u2013 se foi construindo e se foi construindo desta forma \u2013 e porque \u00e9 que o aceitamos.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][lab_button title=&#8221;Comentar&#8221; type=&#8221;standard&#8221; button_bg=&#8221;custom&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Foutraseconomias.pt%2Foutrasec%2Fcomentarios%2F|title:Comentarios&#8221; button_bg_custom=&#8221;#c7080d&#8221; button_txt_hover_custom=&#8221;#d88b39&#8243; button_txt_custom=&#8221;#ffffff&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_custom_heading text=&#8221;Bibliografia e refer\u00eancias&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text]Caldas, Jos\u00e9 Castro &amp; Lou\u00e7\u00e3, Francisco (2010), Economia(s). Porto: Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento<\/p>\n<p>Fernandes, Judite Canha (2017). O mais dif\u00edcil do Capitalismo \u00e9 encontrar o s\u00edtio onde p\u00f4r as bombas. Bragan\u00e7a Paulista: Editora Urutau<\/p>\n<p>Observat\u00f3rio sobre Crises e Alternativas (2012). Dicion\u00e1rio das Crises e das Alternativas. Coimbra: Almedina<\/p>\n<p>Patel, Raj &amp; Moore, Jason (2018). A hist\u00f3ria do mundo em sete coisas baratas. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a<\/p>\n<p>Rethinking economics &amp; The New Weather Institute. (2017) Thesis for an Economics Reformation. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.newweather.org\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/33-Theses-for-an-Economics-Reformation.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.newweather.org\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/33-Theses-for-an-Economics-Reformation.pdf<\/a><\/p>\n<p>Solidarity Economy Association. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/solidarityeconomy.cargo.site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/solidarityeconomy.cargo.site\/<\/a><\/p>\n<p>Wallerstein, Immanuel (2001) Capitalismo Hist\u00f3rico e Civiliza\u00e7\u00e3o Capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_custom_heading text=&#8221;Sistema econ\u00f3mico hegem\u00f3nico:&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_custom_heading text=&#8221;um puzzle a desmontar&#8221; font_container=&#8221;tag:h2|font_size:35|text_align:left|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1693851247429{padding-top: 10px !important;}&#8221;]CIDAC Tempo aproximado de leitura: 31 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text] O capital \u00e9 correr atrav\u00e9s de siderais espa\u00e7os comerciais infinitos as cores a trincar o preto dos p\u00e9s, a cabe\u00e7a um zoado infernal de cheiros. loja ap\u00f3s loja um hiperlink uma metatag uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4962,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"h5ap_radio_sources":[],"footnotes":""},"portfolio_category":[141],"portfolio_tag":[271],"class_list":["post-5187","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-revistan1","portfolio_tag-rev1"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/5187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5187"}],"version-history":[{"count":44,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/5187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10911,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/5187\/revisions\/10911"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=5187"},{"taxonomy":"portfolio_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tag?post=5187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}