{"id":5549,"date":"2023-09-11T18:43:02","date_gmt":"2023-09-11T18:43:02","guid":{"rendered":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/?post_type=portfolio&#038;p=5549"},"modified":"2026-03-03T18:14:04","modified_gmt":"2026-03-03T18:14:04","slug":"feminismos-e-ecofeminismo-critico","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/feminismos-e-ecofeminismo-critico\/","title":{"rendered":"Feminismos e ecofeminismo cr\u00edtico"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row css=&#8221;.vc_custom_1694459385630{padding-top: 50px !important;}&#8221;][vc_column][vc_custom_heading text=&#8221;Feminismos e ecofeminismo cr\u00edtico&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h5><strong>\u00c1lvaro Fonseca e Gra\u00e7a Roj\u00e3o (Rede para o Decrescimento)<\/strong><\/h5>\n<p>Tempo aproximado de leitura: 6 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As correntes feministas, na sua diversidade, ajudam-nos a perceber a crise societal \u00e0 luz das assimetrias de poder existentes, pois colocam em evid\u00eancia as estruturas de domina\u00e7\u00e3o patriarcal. Destacamos neste texto as propostas da economia feminista e do ecofeminismo cr\u00edtico.<\/p>\n<h4><strong>Economia, trabalho e (re)produ\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">A economia feminista tem um contributo muito importante para a compreens\u00e3o integral do sistema econ\u00f3mico, que adv\u00e9m da sua reflex\u00e3o em torno dos conceitos de economia, de trabalho e de produ\u00e7\u00e3o. Defende uma no\u00e7\u00e3o de economia lata, isto \u00e9, que n\u00e3o se confina \u00e0quilo que \u00e9 valorizado pelos mercados, e tem em conta todo o leque de atividades fundamentais para fazer face \u00e0s necessidades do dia-a-dia, desocultando e valorizando assim as atividades n\u00e3o mercantis fundamentais ao nosso bem-estar, nomeadamente as que dizem respeito \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades quotidianas das pessoas e das fam\u00edlias, como cuidar das crian\u00e7as, preparar refei\u00e7\u00f5es, lavar roupa, etc., mas tamb\u00e9m o voluntariado, a agricultura para auto-consumo, entre muitas outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As correntes feministas contribu\u00edram ainda para afirmar uma no\u00e7\u00e3o de trabalho que n\u00e3o se restringe \u00e0 ideia de mercadoria, medida pelo sal\u00e1rio e remunerada pelo mercado. A sua conce\u00e7\u00e3o inclui o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados, realizados de forma gratuita principalmente por mulheres, e reconhece o seu papel fundamental na cria\u00e7\u00e3o de bem-estar individual e coletivo. N\u00e3o se trata de visibilizar o trabalho n\u00e3o remunerado para o colocar num patamar id\u00eantico ao da produ\u00e7\u00e3o mercantil, j\u00e1 que a proposta da economia feminista aponta no sentido de um outro modelo de organiza\u00e7\u00e3o social, que coloca no centro a sustenta\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intimamente ligada \u00e0 ideia de economia, num sentido lato, e ao reconhecimento de todo o trabalho, nomeadamente do n\u00e3o remunerado, est\u00e1 tamb\u00e9m o questionamento do bin\u00f3mio produ\u00e7\u00e3o\/reprodu\u00e7\u00e3o. A reprodu\u00e7\u00e3o social consiste no processo que permite criar condi\u00e7\u00f5es materiais para que o sistema tenha continuidade, ou seja, trata de produzir, manter e substituir geracionalmente a vida, sendo, portanto, indispens\u00e1vel para que o capitalismo ou a esfera dita produtiva possam existir. Se a economia convencional considera apenas produtivas as atividades com valor mercantil, a economia feminista mostra como as atividades quotidianas ligadas ao trabalho dom\u00e9stico e de cuidados, classificadas como reprodutivas, ao inv\u00e9s de terem um papel secund\u00e1rio, s\u00e3o centrais, j\u00e1 que sem elas a vida n\u00e3o seria poss\u00edvel noutras esferas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes questionamentos sobre o que \u00e9 economia, trabalho e (re)produ\u00e7\u00e3o contribuem para tornar mais evidente o papel do capitalismo patriarcal na manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o das mulheres e no deslocamento de custos para a esfera dom\u00e9stica. O capitalismo e o patriarcado fundiram-se, pois sem a opress\u00e3o das mulheres e sem a desvaloriza\u00e7\u00e3o do seu trabalho (remunerado ou n\u00e3o remunerado) o capitalismo n\u00e3o poderia sobreviver. A desigualdade na divis\u00e3o sexual do trabalho e a grande presen\u00e7a das mulheres no trabalho n\u00e3o-remunerado ilustram a secundariza\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o social e a tentativa de a subordinar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de lucro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conex\u00e3o entre feminismo e ecologia est\u00e1 na base do ecofeminismo, um termo utilizado pela primeira vez em 1974 por Fran\u00e7oise d\u2018Eaubonne. Esta corrente dos feminismos considera que a opress\u00e3o das mulheres e a devasta\u00e7\u00e3o da natureza s\u00e3o fen\u00f3menos com a mesma raiz: o capitalismo patriarcal, evidenciando o potencial transformador de uma revolu\u00e7\u00e3o simultaneamente ecol\u00f3gica e capaz de dar corpo a novas rela\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero. Ao reconhecer a origem comum das crises sociais e ecol\u00f3gicas, o ecofeminismo mostra como os caminhos de uma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o social s\u00e3o incompat\u00edveis com os princ\u00edpios do capitalismo neoliberal (acumula\u00e7\u00e3o capitalista, prote\u00e7\u00e3o do lucro e da propriedade privada) como \u00e9 o caso do embuste do capitalismo verde ou das vers\u00f5es do feminismo neoliberal, baseadas na meritocracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob o r\u00f3tulo do ecofeminismo acomodam-se correntes distintas, nomeadamente as de cariz mais espiritualista e essencialista que, ao criticarem os privil\u00e9gios masculinos, acabaram por apelar a caracter\u00edsticas supostamente inatas, distintivas das mulheres. Estas correntes foram, e t\u00eam sido, alvo de uma cr\u00edtica cerrada pela sua vis\u00e3o celebrat\u00f3ria da mulher-m\u00e3e e da sua especial \u00e9tica do cuidado, que contribuiu para alimentar as amarras que prendem as mulheres a pap\u00e9is de g\u00e9nero pr\u00e9-determinados, atribuindo \u00e0 gen\u00e9tica o resultado de processos socio-hist\u00f3ricos. Acresce ainda que estas correntes tenderam a conceber as mulheres como categoria unit\u00e1ria, ignorando outros fatores como, por exemplo, a classe social ou a origem \u00e9tnico-racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ecofeminismo cr\u00edtico \u00e9 uma corrente transformadora, que se afasta das vis\u00f5es espiritualistas e essencialistas e assume um feminismo ecol\u00f3gico, promotor de uma educa\u00e7\u00e3o para o cuidado. O seu car\u00e1cter especialmente integrador adv\u00e9m do facto de conseguir criar um campo de articula\u00e7\u00e3o entre movimentos feministas e ambientalistas, assumindo-se que nem todos os movimentos ecologistas s\u00e3o feministas, nem as correntes feministas demonstram sempre preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas.\u00a0O ecofeminismo visa superar a divis\u00e3o bipolarizada de pap\u00e9is sociais, marcada pelas categorias de g\u00e9nero socialmente constru\u00eddas e contraria as rela\u00e7\u00f5es de poder patriarcal que remetem as mulheres para a esfera dom\u00e9stica e do cuidado, com uma suposta sacraliza\u00e7\u00e3o das virtudes que lhes seriam inerentes. Evidencia que as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o equiparadas \u00e0 natureza e, tal como esta, s\u00e3o exploradas pelo sistema capitalista atrav\u00e9s do trabalho n\u00e3o pago, o alicerce fundamental da reprodu\u00e7\u00e3o social. O capitalismo neoliberal equipara a Terra e o trabalho de cuidado a recursos pass\u00edveis de apropria\u00e7\u00e3o, que devem, portanto, ser mantidos gratuitos ou t\u00e3o baratos e eficientes quanto for poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o integral de cuidados do ecofeminismo tem em conta o cuidado com as pessoas, mas tamb\u00e9m os cuidados ecossist\u00e9micos. Liberta a reprodu\u00e7\u00e3o social da sua posi\u00e7\u00e3o subordinada e instrumental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e, desta forma, coloca no centro de todas as a\u00e7\u00f5es a sustenta\u00e7\u00e3o da vida na Terra.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][lab_button title=&#8221;Comentar&#8221; type=&#8221;standard&#8221; button_bg=&#8221;custom&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Foutraseconomias.pt%2Foutrasec%2Fcomentarios%2F|title:Comentarios&#8221; button_bg_custom=&#8221;#c7080d&#8221; button_txt_custom=&#8221;#ffffff&#8221; button_txt_hover_custom=&#8221;#d88b39&#8243;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_custom_heading text=&#8221;Refer\u00eancias&#8221; font_container=&#8221;tag:h3|text_align:left|color:%23163a48&#8243; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_column_text]Arruzza, C., Bhattacharya, T., &amp; Fraser, N. (2019). Feminismo para os 99%: um manifesto. Edi\u00e7\u00e3o em digital, Penguin Random House, Lisboa.<\/p>\n<p>Barca, S. (2020). For\u00e7as de reprodu\u00e7\u00e3o. O ecofeminismo socialista e a luta para desfazer o Antropoceno. e-cadernos CES, (34).<\/p>\n<p>Carrasco, C. (2018). A economia feminista: um panorama sobre o conceito de reprodu\u00e7\u00e3o. Tem\u00e1ticas, 26(52),\u00a0 Campinas, SP, pp 31-68. DOI 10.20396\/tem\u00e1ticas.v26i52.11703<\/p>\n<p>Ezquerra, S. (2018). De la Econom\u00eda feminista a la democratizaci\u00f3n de los cuidados. Viento sur, 156, (pp. 39-47).<\/p>\n<p>Federici, S. (2004). Calib\u00e3 e a Bruxa: mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Elefante Editora.\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/coletivosycorax.org\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/CALIBA_E_A_BRUXA_WEB-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ler<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Fraser, N. (2017). Para uma cr\u00edtica das crises do capitalismo: entrevista com Nancy Fraser. 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