{"id":6110,"date":"2024-02-01T18:16:05","date_gmt":"2024-02-01T18:16:05","guid":{"rendered":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/?post_type=portfolio&#038;p=6110"},"modified":"2024-04-22T13:39:41","modified_gmt":"2024-04-22T13:39:41","slug":"crise-climatica-um-olhar-desde-a-guine-bissau","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/crise-climatica-um-olhar-desde-a-guine-bissau\/","title":{"rendered":"Crise clim\u00e1tica, um olhar desde a Guin\u00e9-Bissau"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707237692675{padding-top: 70px !important;}&#8221;][vc_column][vc_empty_space][vc_custom_heading text=&#8221;Crise clim\u00e1tica, um olhar desde a Guin\u00e9-Bissau&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23c7080d&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h5><strong>Este texto resulta de uma entrevista realizada pelo CIDAC, em novembro de 2023 em Bissau, a Miguel de Barros, soci\u00f3logo, investigador e diretor executivo da ONG guineense <a href=\"https:\/\/tiniguena-etn.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiniguena<\/a>.<\/strong><\/h5>\n<p>Tempo m\u00e9dio de leitura: 18 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>Miguel, quando falamos de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na Guin\u00e9-Bissau: o que \u00e9 que te vem \u00e0 mente?<\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ultimamente, a quest\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas entrou como um apan\u00e1gio n\u00e3o s\u00f3 para o alargamento de l\u00f3gicas neocoloniais e geoestrat\u00e9gicas, mas tamb\u00e9m como um subterf\u00fagio para uma nova abordagem das modalidades de coopera\u00e7\u00e3o e de financiamento dito \u201climpo\u201d ao n\u00edvel por exemplo do Sul, mas que no fundo agregam tr\u00eas quest\u00f5es fundamentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, a quest\u00e3o da manuten\u00e7\u00e3o da pobreza. Em segundo lugar, a quest\u00e3o da depend\u00eancia econ\u00f3mica face aos modelos de desenvolvimento do capital \u2013 um dos exemplos mais espec\u00edficos \u00e9 a quest\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o da tecnologia e toda a assist\u00eancia associada. E, em terceiro lugar, a substitui\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva sobretudo de alimentos para bens n\u00e3o aliment\u00edcios. Isso tem criado muitas situa\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o, por exemplo, sobre as quest\u00f5es ligadas \u00e0 energia limpa, mas para as quais n\u00e3o se fazem estudos cabais que permitam aproveitar o potencial existente a n\u00edvel local mas sim a n\u00edvel da transfer\u00eancia de tecnologias. A Guin\u00e9-Bissau tem, por exemplo, sete meses de chuva, no entanto n\u00e3o se fala em sistemas de reten\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e de valoriza\u00e7\u00e3o da nossa carga pluviom\u00e9trica, e nem se fala de energia solar e como \u00e9 que n\u00f3s podemos aproveitar a quantidade de sol que temos para a sua produ\u00e7\u00e3o. Mas rapidamente pensa-se em avan\u00e7ar para um sistema muito sofisticado sem, no entanto, termos toda a estrutura local que permita sustentar essa transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, para mim, o elemento mais cr\u00edtico, \u00e9 a ilus\u00e3o que temos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nega\u00e7\u00e3o entre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que tem a ver com o consumo, de que ningu\u00e9m fala. N\u00f3s n\u00e3o podemos ter um sistema produtivo, um sistema econ\u00f3mico justo, se os padr\u00f5es de consumo no Norte n\u00e3o se alterarem. Ou seja, o consumo de energia, o consumo em termos de combust\u00edveis f\u00f3sseis, o consumo em termos da produ\u00e7\u00e3o nuclear, e de outros bens e servi\u00e7os n\u00e3o mudaram no Norte. Portanto, aquilo que est\u00e1 a ser vendido aos pa\u00edses do Sul, como por exemplo trabalharem agora para taxas de reten\u00e7\u00e3o de carbono, n\u00e3o leva a nenhuma transforma\u00e7\u00e3o, porque est\u00e1 a ser pedido um esfor\u00e7o de conserva\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel local, quando aquilo que n\u00f3s vendemos n\u00e3o muda o padr\u00e3o de consumo. O padr\u00e3o de consumo continua. A Guin\u00e9 n\u00e3o tem ind\u00fastrias, n\u00e3o emite. Ent\u00e3o h\u00e1 quem venha comprar a percentagem de emiss\u00e3o de que a Guin\u00e9-Bissau tem direito, \u2013 olhem s\u00f3 a ret\u00f3rica: \u201co direito de emiss\u00e3o\u201d que nem deveria ser nesta perspetiva &#8230; N\u00f3s temos o direito de preserva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de emiss\u00e3o de di\u00f3xido de carbono. Mas h\u00e1 agora uma corrida muito forte no sentido de pedir a pa\u00edses como a Guin\u00e9-Bissau que vendam as suas quotas de emiss\u00e3o para receberem em contrapartida algum dinheiro para o apoio or\u00e7amental. Isso n\u00e3o leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da sustentabilidade, nem nos garante que h\u00e1 uma transi\u00e7\u00e3o em termos de padr\u00f5es de comportamento que respeite tudo aquilo que t\u00eam sido os desgastes que n\u00f3s estamos a provocar a n\u00edvel rural. Por isso, se o padr\u00e3o de consumo, tanto em termos de produ\u00e7\u00e3o como de consumo energ\u00e9tico no Norte, corresponder tamb\u00e9m \u00e0quilo que s\u00e3o os processos da educa\u00e7\u00e3o para o consumo respons\u00e1vel e, ao mesmo tempo, salvaguarde aquilo que \u00e9 o princ\u00edpio das contribui\u00e7\u00f5es das sociedades de economias n\u00e3o poluentes, n\u00e3o se alterar, ser\u00e1 muito dif\u00edcil conseguirmos uma sustentabilidade tanto ambiental como econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6111&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6120&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707143385881{padding-top: 60px !important;}&#8221;][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>Em termos concretos, h\u00e1 j\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es palp\u00e1veis das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na Guin\u00e9-Bissau?<\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, n\u00f3s temos a v\u00e1rios n\u00edveis. N\u00f3s temos processos mais acelerados, por exemplo, nas zonas onde houve maior incid\u00eancia de uma explora\u00e7\u00e3o selv\u00e1tica dos recursos naturais, onde h\u00e1 uma forma muito evidente de altera\u00e7\u00f5es tanto na forma de ocupa\u00e7\u00e3o do solo, como na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, e no sistema cultural. Posso dar tr\u00eas exemplos. A regi\u00e3o de Oio, hoje, n\u00e3o tem florestas prim\u00e1rias. Isto porque, durante o per\u00edodo de vig\u00eancia do governo que saiu do golpe de Estado de 2012, houve concess\u00f5es de licen\u00e7as para explora\u00e7\u00e3o da floresta sem nenhum respeito pelo quadro legal existente e sem nenhuma organiza\u00e7\u00e3o do ponto de vista da sustentabilidade da pr\u00f3pria explora\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds exportou toros quando podia fazer transforma\u00e7\u00e3o de madeira local (em contraplacados, para depois esses contraplacados sa\u00edrem), mas n\u00e3o houve igualmente nenhum plano de refloresta\u00e7\u00e3o e o mais gritante \u00e9 que se exportou madeira com o invent\u00e1rio do patrim\u00f3nio florestal de 1986. N\u00f3s estamos a vender uma quota-parte que n\u00e3o existe, porque os mecanismos de explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o respeitaram nem o caderno de encargos e muito menos o princ\u00edpio da pr\u00f3pria sustentabilidade. Mas o que \u00e9 curioso \u00e9 que essas zonas s\u00e3o de florestas prim\u00e1rias, com carater\u00edsticas para a explora\u00e7\u00e3o de produtos silvestres, s\u00e3o espa\u00e7os sagrados, s\u00e3o espa\u00e7os de rituais, s\u00e3o espa\u00e7os que a pr\u00f3pria comunidade utiliza tamb\u00e9m para o acesso a todos os servi\u00e7os ecossist\u00e9micos que s\u00e3o a base da sua economia e que, ao mesmo tempo, oferecem a possibilidade de fixa\u00e7\u00e3o em termos de cria\u00e7\u00e3o de gado, em termos de produ\u00e7\u00e3o cereal\u00edfera. Mas, neste momento, esses povos est\u00e3o a ser obrigados a exilarem-se para as cidades porque j\u00e1 n\u00e3o conseguem fixar-se nessas zonas, porque tamb\u00e9m com a proximidade dos rios e a subida do n\u00edvel da \u00e1gua do mar j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam capacidade de travar as inunda\u00e7\u00f5es para que n\u00e3o cheguem aos seus campos.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando olhamos tamb\u00e9m, ainda no norte, para a zona de Farim, onde foi explorado o fosfato, vimos claramente que os n\u00edveis de temperatura, com os quais estas comunidades est\u00e3o agora a confrontar-se, est\u00e3o a obrigar n\u00e3o s\u00f3 a sa\u00edrem daquilo que eram os seus s\u00edtios privilegiados de produ\u00e7\u00e3o e que foram zonas de explora\u00e7\u00e3o desses recursos, mas tamb\u00e9m e o mais grave, tiveram que abandonar o sistema ecol\u00f3gico de produ\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de constru\u00e7\u00e3o das suas habita\u00e7\u00f5es, que eram \u00e0 base de argila, de blocos org\u00e2nicos, com o colmo, com cibis<sup>1<\/sup>. Esses projetos, como recompensa, deram-lhes chapas de zinco de baixa qualidade. Assim retirou-se a comunidade do seu s\u00edtio de produ\u00e7\u00e3o. Agora n\u00e3o t\u00eam quintais, n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7os de pastagem, n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7os de pesca, e est\u00e3o com constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, num espa\u00e7o muito mais pequeno e com altos n\u00edveis de temperatura, porque o zinco n\u00e3o consegue isolar o calor.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_column_text]<span style=\"color: #c7080d;\"><strong><sup>1<\/sup><\/strong><font size=\"3\"><\/span>\u00a0Uma palmeira com madeira imputresc\u00edvel, muito usada na constru\u00e7\u00e3o.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6123&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1706899510098{padding-top: -10px !important;padding-bottom: -10px !important;}&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas vamos olhar para o caso dos Bijag\u00f3s, onde h\u00e1 uma ind\u00fastria selv\u00e1tica do turismo, que est\u00e1 a colonizar territ\u00f3rios, e a obrigar a comunidade local a abandonar as zonas sagradas, exatamente na zona costeira, onde tinham pr\u00e1ticas que permitiam o repouso biol\u00f3gico do solo e que tamb\u00e9m permitiam uma transi\u00e7\u00e3o entre a zona costeira, a zona de savana e a zona de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Nessas zonas todas foram agora implantadas infraestruturas do turismo, sem respeito pela orla mar\u00edtima. Isso est\u00e1 a obrigar as comunidades a ficarem, n\u00e3o s\u00f3 mais vulner\u00e1veis do ponto de vista clim\u00e1tico, mas obriga-as a desloca\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o desloca\u00e7\u00f5es sazonais para fins agr\u00edcolas, mas torna-as pessoas que s\u00e3o agora \u201cmigrantes\u201d dentro do seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio; privados dos recursos econ\u00f3micos, e ainda por cima sem prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, quando analisamos esses fen\u00f3menos podemos encontrar, por um lado, a acelera\u00e7\u00e3o dos efeitos naturais em termos das manifesta\u00e7\u00f5es da vulnerabilidade do clima, que tem uma incid\u00eancia forte com a a\u00e7\u00e3o humana exatamente porque o Estado n\u00e3o consegue proteger as comunidades, os seus espa\u00e7os, os seus territ\u00f3rios privilegiados, que permitam ter uma rela\u00e7\u00e3o muito mais ecol\u00f3gica e duradoura na rela\u00e7\u00e3o com o seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, com a sua ancestralidade, com a sua espiritualidade e com uma economia mais perene. Isso coloca-os perante um sistema onde n\u00e3o s\u00e3o donos da sua terra, n\u00e3o t\u00eam capacidade produtiva, est\u00e3o dependentes de um servi\u00e7o sazonal ligado ao turismo e, ao mesmo tempo, n\u00e3o t\u00eam nenhum v\u00ednculo laboral que gostariam de ter, nem alguma garantia de reivindica\u00e7\u00e3o de seus direitos. A combina\u00e7\u00e3o dessa forma de expropria\u00e7\u00e3o dos recursos, com impacto forte ao n\u00edvel do clima, est\u00e1 a gerar mais pobreza, maior inseguran\u00e7a humana.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707142801831{padding-top: 20px !important;}&#8221;][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #c7080d;\">Falavas h\u00e1 pouco dos fosfatos. Essa explora\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente para alimentar a produ\u00e7\u00e3o de adubos qu\u00edmicos, que alimentam a agricultura intensiva no Norte geopol\u00edtico. Quem s\u00e3o os atores que est\u00e3o por tr\u00e1s da explora\u00e7\u00e3o de fosfatos na Guin\u00e9-Bissau?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s tivemos v\u00e1rios grupos. O processo de organiza\u00e7\u00e3o das multinacionais para chegarem a contextos de fraca capacidade em termos de fluxo econ\u00f3mico, como a Guin\u00e9-Bissau, coloca-se mais ao n\u00edvel de qual \u00e9 a qualidade da mat\u00e9ria-prima que pode oferecer. Por exemplo, a Guin\u00e9-Bissau \u00e9 um grande produtor de castanha-de-caju, exporta castanha-de-caju, n\u00e3o produz a quantidade nem de Mo\u00e7ambique nem da Costa de Marfim mas o seu produto biol\u00f3gico tem uma qualidade forte. \u00c9 a mesma coisa tamb\u00e9m com o fosfato, a bauxite, a areia pesada e afins. N\u00f3s tivemos, por um lado, multinacionais americanas que depois subcontrataram multinacionais sul-africanas para atuarem na zona e tivemos tamb\u00e9m multinacionais francesas que contrataram multinacionais de capitais africanos para virem trabalhar na zona. H\u00e1 um fen\u00f3meno que \u00e9 chamado racismo ambiental, que vem enfraquecendo, empobrecendo e, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m colocando numa situa\u00e7\u00e3o de estado de s\u00edtio todos os atores, onde quem presta servi\u00e7o \u00e9 s\u00f3 um elemento da cadeia, mas n\u00e3o \u00e9 detentor do pr\u00f3prio recurso. O que faz com que essas comunidades locais acabem por ser ref\u00e9ns dessa cadeia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, h\u00e1 elementos bons. Os elementos bons que n\u00f3s tivemos aqui, no caso de Farim, foi a associa\u00e7\u00e3o de filhos e amigos da localidade onde estavam a ser explorados esses recursos que se organizou, mobilizou-se e, hoje, gra\u00e7as \u00e0 sua press\u00e3o (como tamb\u00e9m dos que est\u00e3o com a areia pesada, em Varela) foi poss\u00edvel, com a interven\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como a Tiniguena, e a exist\u00eancia da lei de reassentamento das comunidades locais. Gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como as nossas, passaram a existir audi\u00eancias p\u00fablicas para atribui\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o baseadas naquilo que a Lei de avalia\u00e7\u00e3o de impacto ambiental obriga.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_single_image image=&#8221;6124&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707142699823{padding-top: 60px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m esse elemento deu for\u00e7a \u00e0s pr\u00f3prias comunidades que come\u00e7aram a reivindicar um estatuto comunit\u00e1rio, para que o Estado reconhe\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 o direito de gest\u00e3o dos seus espa\u00e7os e recursos, mas tamb\u00e9m a legitimidade das suas formas de gest\u00e3o anteriores ao Estado moderno que n\u00f3s conhecemos. Da\u00ed que a lei da floresta comunit\u00e1ria permitiu que as mulheres na regi\u00e3o de Oio (sobretudo ao n\u00edvel das florestas comunit\u00e1rias em que a KAFO<sup>2<\/sup> interv\u00e9m), que estavam a trabalhar na zona de Djalicunda, conseguiram aprisionar os equipamentos dos chineses que tinham ido l\u00e1 explorar a floresta. Isso com a coniv\u00eancia dos delegados da floresta local, que n\u00e3o tiveram nenhuma autoridade perante os chineses, mas as mulheres dessas matas sagradas conseguiram aprisionar e apreender todos os equipamentos fazendo com que, hoje, essas matas estejam conservadas. Os n\u00edveis de mobiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o \u00e0s vezes fracos, n\u00e3o porque n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia mas porque, frequentemente, falta a informa\u00e7\u00e3o. E, ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 estruturas que acompanhem essas entidades no seu processo de constru\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o coletiva. Cada vez que temos esses processos com ciclos mais violentos, vamos ter tamb\u00e9m desafios de maior reordenamento do territ\u00f3rio, acabando estes por ser a oportunidade de trazer essas experi\u00eancias para a prote\u00e7\u00e3o dessas comunidades, como, por exemplo, a experi\u00eancia que estamos a ter no sul, em Quinara, de legaliza\u00e7\u00e3o de terras comunit\u00e1rias camponesas. O que permite n\u00e3o s\u00f3 salvaguardar o patrim\u00f3nio partilhado, mas tamb\u00e9m trabalhar no pr\u00f3prio zoneamento agroflorestal e agr\u00edcola, permitindo que os n\u00edveis de tens\u00e3o e de conflito com a migra\u00e7\u00e3o das comunidades ficasse mais baixo.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_column_text]<span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #c7080d;\"><strong><sup>2<\/sup><\/strong><\/span> Federa\u00e7\u00e3o camponesa da regi\u00e3o de Oio.<\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6126&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707143715441{padding-top: 20px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>Atualmente, falando de resist\u00eancias e de mobiliza\u00e7\u00f5es, qual \u00e9 o trabalho da <a style=\"color: #c7080d;\" href=\"https:\/\/tiniguena-etn.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiniguena<\/a> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o ligada \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos com tr\u00eas projetos essenciais. Um dos projetos chamamos \u201cMulheres construindo espa\u00e7os c\u00edvicos de participa\u00e7\u00e3o\u201d que tem incid\u00eancia no norte, no leste e no sul e permite olhar sobretudo para as mulheres agricultoras familiares, como criam mecanismos de mitiga\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo de resposta a crises clim\u00e1ticas, sobretudo nas zonas de produ\u00e7\u00e3o de produtos estrat\u00e9gicos, tanto para a sua economia familiar como para o seu sistema cultural. Isto tamb\u00e9m porque a conserva\u00e7\u00e3o dessas variedades, por exemplo, de sementes, est\u00e1 intimamente ligada ao ciclo de transi\u00e7\u00e3o de classe de idades. Mas tamb\u00e9m estamos a compreender como \u00e9 que se pode trabalhar na moderniza\u00e7\u00e3o dos processos agr\u00edcolas, n\u00e3o com grande mecaniza\u00e7\u00e3o, mas com a cria\u00e7\u00e3o de tecnologias adaptadas, atrav\u00e9s de sistemas mais motorizados e tamb\u00e9m de tecnologias que permitam, por exemplo, reduzir a exposi\u00e7\u00e3o da mulher a tudo o que s\u00e3o os elementos de risco: o fumo, o fogo\u2026 E, a partir da\u00ed, introduzir essas mulheres dentro de uma cadeia de servi\u00e7os e de economia financeira, que t\u00eam a ver com sistemas de cr\u00e9dito e de poupan\u00e7a, por exemplo, toda a tradi\u00e7\u00e3o existente daquilo que se chamava sistemas da abota<sup>3<\/sup><span style=\"font-size: medium;\"><\/span> e colocarmos no programa de abastecimento de alimentos as cantinas escolares atrav\u00e9s do programa nacional de educa\u00e7\u00e3o para a seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, temos um outro projeto que \u00e9 importante, tem a ver com feminismo e agroecologia, como trazer essa abordagem a partir dessas zonas de interven\u00e7\u00e3o, para a constru\u00e7\u00e3o de uma agenda comunit\u00e1ria de influ\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, de pr\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m de representa\u00e7\u00e3o dessas mulheres dentro da estrutura de decis\u00e3o tradicional e dentro das estruturas formais do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por \u00faltimo, temos o que n\u00f3s chamamos de \u201cMulheres Rurais\u201d que trabalham n\u00e3o s\u00f3 entre essas din\u00e2micas mas trazem experi\u00eancias de cada regi\u00e3o que partilham ao n\u00edvel das comunidades \u00e9tnicas, ao n\u00edvel de cada prov\u00edncia. Essas experi\u00eancias podem permitir construir uma agenda nacional, saindo da \u201cagenda de g\u00e9nero\u201d onde s\u00f3 se fala da representa\u00e7\u00e3o das mulheres da classe m\u00e9dia alta, que t\u00eam altos n\u00edveis de escolaridade e que est\u00e3o dentro do sistema formal, mas sim trazendo as mulheres que est\u00e3o desprotegidas, que est\u00e3o nas zonas rurais, s\u00e3o garantes da economia, e asseguram processos de conserva\u00e7\u00e3o de patrim\u00f3nios gen\u00e9ticos fundamentais. As suas pr\u00e1ticas, os seus comportamentos, os seus pensamentos e as suas aprendizagens devem estar atrav\u00e9s das suas vozes, tamb\u00e9m, dentro das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1707143740288{padding-top: 60px !important;}&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #c7080d;\"><strong><sup>3<\/sup><\/strong><\/span><span style=\"font-size: medium;\"> A abota \u00e9 um sistema de poupan\u00e7a solid\u00e1ria em que cada pessoa contribui com um valor monet\u00e1rio igual e em que uma delas, rotativamente, pode usar o conjunto do dinheiro. \u00c9 tamb\u00e9m conhecido como tontina.<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6350&#8243; img_size=&#8221;medium&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][lab_button title=&#8221;Comentar&#8221; type=&#8221;standard&#8221; button_bg=&#8221;custom&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Foutraseconomias.pt%2Foutrasec%2Fcomentarios%2F|target:_blank&#8221; button_bg_custom=&#8221;#c7080d&#8221; button_txt_custom=&#8221;#ffffff&#8221; button_txt_hover_custom=&#8221;d88b39&#8243;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707237692675{padding-top: 70px !important;}&#8221;][vc_column][vc_empty_space][vc_custom_heading text=&#8221;Crise clim\u00e1tica, um olhar desde a Guin\u00e9-Bissau&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23c7080d&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Este texto resulta de uma entrevista realizada pelo CIDAC, em novembro de 2023 em Bissau, a Miguel de Barros, soci\u00f3logo, investigador e diretor executivo da ONG guineense Tiniguena. Tempo m\u00e9dio de leitura: 18 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text] Miguel, quando falamos de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6111,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"h5ap_radio_sources":[],"footnotes":""},"portfolio_category":[197],"portfolio_tag":[],"class_list":["post-6110","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-revistan2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/6110","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6110"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/6110\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6543,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/6110\/revisions\/6543"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=6110"},{"taxonomy":"portfolio_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tag?post=6110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}