{"id":6333,"date":"2024-02-05T11:55:20","date_gmt":"2024-02-05T11:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/?post_type=portfolio&#038;p=6333"},"modified":"2024-11-06T12:28:08","modified_gmt":"2024-11-06T12:28:08","slug":"desconstruindo-a-transicao-energetica-do-capitalismo-verde","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/desconstruindo-a-transicao-energetica-do-capitalismo-verde\/","title":{"rendered":"Desconstruindo a \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d do \u201ccapitalismo verde\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707233242465{padding-top: 70px !important;}&#8221;][vc_column][vc_custom_heading text=&#8221;Desconstruindo a \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23c7080d&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_custom_heading text=&#8221;do \u201ccapitalismo verde\u201d&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23c7080d&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h4><strong>CIDAC e Mariana Riquito; ilustra\u00e7\u00f5es: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sou.o.outro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><span style=\"color: #c7080d;\">So<\/span><\/em><\/a>\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p>Tempo m\u00e9dio de leitura: 20 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica refere-se \u00e0 passagem de uma matriz energ\u00e9tica de origem f\u00f3ssil, como o petr\u00f3leo, o g\u00e1s natural e o carv\u00e3o, para uma matriz baseada em fontes \u201crenov\u00e1veis\u201d, como a e\u00f3lica, solar e h\u00eddrica, ou os sistemas el\u00e9tricos de armazenamento de energia. Este processo, que implica a ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, infraestruturas e inova\u00e7\u00f5es baixas em carbono em todos os setores produtivos, \u00e9 tamb\u00e9m conhecido por \u201cdescarboniza\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cneutralidade carb\u00f3nica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente propagada como solu\u00e7\u00e3o un\u00edvoca para mitigar os impactos clim\u00e1ticos e ambientais decorrentes do consumo massivo de combust\u00edveis f\u00f3sseis, a dita \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d n\u00e3o passa, na verdade, de uma ferramenta discursiva do capitalismo f\u00f3ssil, que dela se serve para se reproduzir e expandir. Como veremos, esta suposta transi\u00e7\u00e3o acaba por reproduzir e perpetuar as narrativas dominantes sobre a nossa compreens\u00e3o do mundo assim como as estruturas socioecon\u00f3micas hegem\u00f3nicas. N\u00e3o podemos, pois, falar de uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d, mas sim de uma \u201cexpans\u00e3o energ\u00e9tica\u201d, que tem permitido ao capitalismo f\u00f3ssil reinventar-se, pintando-se de verde. <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/07\/11\/opiniao\/opiniao\/elixir-eterna-juventude-2056271\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Como escreveu Godofredo Pereira<\/strong><\/a>, citando S\u00e9rgio Godinho, a suposta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e9, para os governos e as empresas, \u201c<strong>o elixir da eterna juventude, esse que quer que tudo mude, para que tudo fique igual<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707135618984{padding-top: 20px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6335&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; add_caption=&#8221;yes&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<h4><strong><span style=\"color: #c7080d;\">A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d n\u00e3o prev\u00ea uma redu\u00e7\u00e3o nos n\u00edveis de consumo e produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9ticos<\/span><\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta suposta transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o questiona os n\u00edveis de consumo energ\u00e9tico atuais nem procura romper com o crescimento cont\u00ednuo na oferta energ\u00e9tica. As <span style=\"color: #c7080d;\"><a style=\"color: #c7080d;\" href=\"https:\/\/econpapers.repec.org\/article\/natnatcli\/v_3a2_3ay_3a2012_3ai_3a6_3ad_3a10.1038_5fnclimate1451.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>estat\u00edsticas<\/strong><\/a><\/span> sugerem que n\u00e3o estamos a assistir a uma substitui\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, mas sim a um aumento da quantidade total de energia que \u00e9 produzida. Falar de \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9, neste contexto, desonesto, j\u00e1 que, e utilizando <span style=\"color: #c7080d;\"><a style=\"color: #c7080d;\" href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S2214629618312246\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>as palavras dos investigadores Richard York e Shannon E. Bell<\/strong><\/a><\/span>, \u201c<strong>n\u00e3o se tem verificado uma mudan\u00e7a real de uma fonte [de energia] para outra<\/strong>\u201d. Nesse sentido, o paradigma atual assemelha-se mais a uma \u201c<strong>adi\u00e7\u00e3o de energias que a uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong><span style=\"color: #c7080d;\">A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d mant\u00e9m a depend\u00eancia de energias f\u00f3sseis<\/span><\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">As estat\u00edsticas mostram-nos que o consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis tem aumentado sistematicamente: em 2022, a procura mundial de energia aumentou 1% e, apesar de um aumento recorde das \u201crenov\u00e1veis\u201d nesse mesmo per\u00edodo, o dom\u00ednio dos combust\u00edveis f\u00f3sseis n\u00e3o se alterou, garantindo 82% dos fornecimentos<sup>1<\/sup>. Embora as energias renov\u00e1veis registem um crescimento regular, estas n\u00e3o t\u00eam ultrapassado o lugar de nicho de mercado, e a previs\u00e3o de futuros investimentos em combust\u00edveis f\u00f3sseis mostra que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tende a alterar-se.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707138627136{padding-top: 20px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d representa uma oportunidade de acumula\u00e7\u00e3o de capital<\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste quadro, em que as renov\u00e1veis s\u00e3o acrescentadas ao mix energ\u00e9tico, mas n\u00e3o substituem os f\u00f3sseis, a mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e a prote\u00e7\u00e3o ambiental, historicamente entendidas como amea\u00e7as, parecem constituir agora uma oportunidade para o capitalismo contempor\u00e2neo: com a ajuda dos Estados, criam-se agora novos mercados, novos produtos, novas oportunidades de neg\u00f3cio \u201cverdes\u201d. No caso da extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no continente europeu \u2014 cuja principal motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de baterias para carros el\u00e9tricos<sup>2 <\/sup>\u2014, verificamos que duas das ind\u00fastrias mais poluidoras do mundo \u2014 a ind\u00fastria mineira e a ind\u00fastria autom\u00f3vel \u2014 se servem da \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d como oportunidade de acumular capital, ao mesmo tempo que \u201climpam\u201d a sua imagem de grandes poluidores. De acordo com dados para 2019\/2020 disponibilizados pela <a href=\"https:\/\/www.iea.org\/commentaries\/carbon-emissions-fell-across-all-sectors-in-2020-except-for-one-suvs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>IEA<\/strong><\/a>, o impacto da crescente fatia do mercado autom\u00f3vel mundial ocupada por viaturas el\u00e9tricas (aproximadamente menos 40.000 barris de petr\u00f3leo por dia) foi completamente anulado pelo consumo que representou o aumento de vendas dos SUV no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cren\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel crescer infinitamente e ser \u201cverde\u201d ao mesmo tempo \u00e9 perigosa, pois sugere que podemos continuar a desgastar o planeta sem sentirmos os efeitos desse esgotamento. Neste sentido, podemos argumentar que a dita transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e9 t\u00e3o somente uma forma de camuflar \u2013 e reproduzir \u2013 o atual sistema econ\u00f3mico, tingindo-o agora de \u201cverde\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d replica o modelo decis\u00f3rio <em>top-down<\/em><\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mesma linha, tamb\u00e9m o modelo decis\u00f3rio se perpetua. As atuais pol\u00edticas da suposta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica europeia, \u00e0 semelhan\u00e7a de muitas outras pol\u00edticas hegem\u00f3nicas, t\u00eam sido decididas e implementadas segundo um modelo decis\u00f3rio <em>top-down<\/em>, que resulta frequentemente na estandardiza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas. A montante, as popula\u00e7\u00f5es locais t\u00eam sido desapropriadas do processo decis\u00f3rio e, a jusante, s\u00e3o expropriadas dos grandes lucros destes neg\u00f3cios, tantas vezes prometidos. Sacrificadas em nome de uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o verde\u201d, \u00e0s popula\u00e7\u00f5es locais sobra-lhes apenas um enorme passivo ambiental e social.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_column_text]<strong><span style=\"color: #c7080d;\"><sup>1<\/sup><\/span><\/strong> Dados do relat\u00f3rio Statistical Review of World Energy de 2023 do Energy Institute, que pode ser consultado <a href=\"https:\/\/www.energyinst.org\/statistical-review\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #c7080d;\">aqui<\/span><\/a>.<\/p>\n<p><span style=\"color: #c7080d;\"><strong><sup>2<\/sup><\/strong><\/span>\u00a0 Em 2022, 80% do l\u00edtio extra\u00eddo mundialmente foi usado para baterias, sendo mais de 60% para carros el\u00e9tricos.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707138643353{padding-top: 20px !important;}&#8221;][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6334&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1707303384056{padding-top: 110px !important;}&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d refor\u00e7a a narrativa dominante da separa\u00e7\u00e3o entre Natureza e Cultura<\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mito da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica n\u00e3o questiona \u2014 e, ali\u00e1s, refor\u00e7a \u2014 a narrativa dominante que estrutura a nossa compreens\u00e3o do mundo. Essa narrativa dominante \u00e9 baseada numa \u201cGrande Divis\u00e3o\u201d entre Natureza e Cultura\/Sociedade, segundo a qual os seres humanos s\u00e3o percecionados como exteriores e independentes da Natureza, e esta como um simples meio para atingir os fins da Cultura\/Sociedade. Esta vis\u00e3o tem servido de substrato ideol\u00f3gico \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica: s\u00f3 entendendo a Natureza como um recurso inferior e descart\u00e1vel se tem podido justificar a sua demoli\u00e7\u00e3o. Enquanto a intr\u00ednseca liga\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia da nossa esp\u00e9cie do resto da Natureza for ignorada pelas pol\u00edticas institucionais, estas continuar\u00e3o a justificar a mercantiliza\u00e7\u00e3o, comodifica\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o da Natureza para fins capitalistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d reduz a complexidade ecol\u00f3gica do planeta ao \u2018clima\u2019 e ao \u2018carbono\u2019<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A suposta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, ao dar prioridade quase exclusiva \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e, especificamente, \u00e0s emiss\u00f5es de carbono, implicitamente concebe o \u2018clima\u2019 como uma esfera distinta da ecologia, por sua vez separada das quest\u00f5es sociopol\u00edticas, econ\u00f3micas e culturais. Fazendo-o, reduz as complexidades ecol\u00f3gicas a n\u00fameros e estat\u00edsticas sobre emiss\u00f5es de carbono, que menosprezam a matriz complexa de interdepend\u00eancias que sustentam a vida na terra, e que n\u00e3o se podem resumir simplesmente ao clima, nem ao carbono. Ao apontar uma causa \u00fanica e identific\u00e1vel \u2014 a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de carbono \u2014, a chamada transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica facilita a convers\u00e3o da natureza em unidades quantific\u00e1veis. Os esquemas de compensa\u00e7\u00e3o de biodiversidade ou os cr\u00e9ditos de carbono s\u00e3o bons exemplos que ilustram a forma como as pol\u00edticas clim\u00e1ticas continuam a achatar a complexidade do planeta, reduzindo-o a agregados t\u00e9cnicos e esquemas matem\u00e1ticos, baseados numa dissocia\u00e7\u00e3o entre a materialidade ecol\u00f3gica e a atividade econ\u00f3mica. Ora, na biosfera, onde tudo est\u00e1 interligado, cortar \u00e1rvores e plantar novas, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 equivalente: uma floresta adulta demora anos a desenvolver-se e a frutificar as ra\u00edzes que a tornam num sistema vivo altamente complexo. Acreditar que a planta\u00e7\u00e3o de novas \u00e1rvores poder\u00e1 (re)compensar a quebra das complexas teias que (inter)ligam as vastas redes de mic\u00e9lios de fungos \u00e0s \u00e1rvores em fruto aos animais que se alimentam deles \u00e0s abelhas que espalham o seu p\u00f3len \u00e9 ignorar que a terra \u00e9 um organismo vivo, em permanente (auto)regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d perpetua e refor\u00e7a a governamentalidade tecnocient\u00edfica<\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao reduzir o planeta a um problema t\u00e9cnico a ser resolvido, reduzindo \u2014 ou deixando de emitir \u2014 emiss\u00f5es de carbono, esta vis\u00e3o favorece aquilo que na literatura se apelida de <em>tecno-fix<\/em>. Um <em>tecno-fix<\/em> refere-se \u00e0 pr\u00e1tica de utilizar a tecnologia para resolver um problema criado por interven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas anteriores. Podemos considerar esta abordagem tecnoc\u00eantrica uma ideologia, que, <a href=\"https:\/\/www.hachettebookgroup.com\/titles\/evgeny-morozov\/to-save-everything-click-here\/9781610393706\/?lens=publicaffairs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>nos termos de Evgeny\u00a0Morozov<\/strong><\/span><\/a>, \u201creduz fen\u00f3menos sociais complexos a problemas bem definidos e delimitados, com solu\u00e7\u00f5es definitivas e comput\u00e1veis\u201d. A ideologia segundo a qual \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas apostando em novas e melhores tecnologias favorece as estruturas do sistema capitalista, pois estas solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas s\u00e3o mediadas pelas l\u00f3gicas do mercado. A abordagem tecnoc\u00eantrica desta suposta transi\u00e7\u00e3o refor\u00e7a, assim, a governamentalidade tecnocient\u00edfica, negligenciando e menosprezando outros saberes e pr\u00e1ticas mais hol\u00edsticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><span style=\"color: #c7080d;\"><strong>A \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica reduz as possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es energ\u00e9ticas<\/strong><\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enfoque na quest\u00e3o tecnocr\u00e1tica da origem energ\u00e9tica obscurece a viol\u00eancia intr\u00ednseca do sistema que essa energia alimenta, limitando, pois, as possibilidades de pensar, imaginar e construir outros futuros que n\u00e3o o da reprodu\u00e7\u00e3o capitalista. Limitando o debate sobre o que \u00e9 \u2014 e o que implica \u2014 a \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d a uma escolha entre poss\u00edveis fontes energ\u00e9ticas, limita-se igualmente a imagina\u00e7\u00e3o social sobre transforma\u00e7\u00f5es mais profundas, que devem ir muito al\u00e9m da decis\u00e3o sobre o tipo de energia consumida e produzida dentro do quadro do sistema capitalista. A narrativa hegem\u00f3nica do mito da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u2014 ao ter estabelecido uma defini\u00e7\u00e3o universal sobre o que significa \u201csalvar o planeta\u201d \u2014 encerra nela as possibilidades de di\u00e1logo sobre outras poss\u00edveis alternativas e futuros, que rompam com o capitalismo, o extrativismo, o industrialismo e o produtivismo.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6336&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por todas estas raz\u00f5es, a suposta transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, longe de representar uma mudan\u00e7a transformativa, assemelha-se a uma reformula\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em>, pois mant\u00e9m intactas as estruturas e as mentalidades que levaram o planeta ao estado cr\u00edtico em que se encontra. O mito da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica aparece, assim, como uma ferramenta comunicativa do capitalismo f\u00f3ssil, que lhe permite fingir que muda de pele para poder continuar a existir. A <strong>transi\u00e7\u00e3o<\/strong> que urge fazer vai muito al\u00e9m de uma mudan\u00e7a na origem das nossas fontes de energia: \u00e9 necess\u00e1ria uma <strong>transforma\u00e7\u00e3o<\/strong> na forma como nos relacionamos com o mundo, na forma como interagimos entre seres humanos e com outras esp\u00e9cies. Para tal, \u00e9 imprescind\u00edvel que as estruturas de consumo, produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia respondam \u00e0s necessidades das popula\u00e7\u00f5es e n\u00e3o do capital; que as pessoas e infraestruturas estejam em simbiose com os territ\u00f3rios e n\u00e3o contra eles; e que a vida na terra seja defendida, respeitada e amada. \u00c9 urgente, pois, que a narrativa verde dos governos e do capital seja combatida, desmistificada e trocada por uma outra: a do verde da natureza, de quem dela vive, e de quem dela cuida.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][lab_button title=&#8221;Comentar&#8221; type=&#8221;standard&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Foutraseconomias.pt%2Foutrasec%2Fcomentarios%2F&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row css=&#8221;.vc_custom_1707233242465{padding-top: 70px !important;}&#8221;][vc_column][vc_custom_heading text=&#8221;Desconstruindo a \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23c7080d&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][vc_custom_heading text=&#8221;do \u201ccapitalismo verde\u201d&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%23c7080d&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] CIDAC e Mariana Riquito; ilustra\u00e7\u00f5es: So\u00a0 Tempo m\u00e9dio de leitura: 20 minutos[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica refere-se \u00e0 passagem de uma matriz energ\u00e9tica de origem f\u00f3ssil, como o petr\u00f3leo, o g\u00e1s natural e o carv\u00e3o, para uma matriz baseada em fontes&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6335,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"h5ap_radio_sources":[],"footnotes":""},"portfolio_category":[197],"portfolio_tag":[],"class_list":["post-6333","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-revistan2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/6333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6333"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/6333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7329,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/6333\/revisions\/7329"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6335"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=6333"},{"taxonomy":"portfolio_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tag?post=6333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}