{"id":7446,"date":"2024-11-03T22:37:19","date_gmt":"2024-11-03T22:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/?post_type=portfolio&#038;p=7446"},"modified":"2026-03-03T18:01:10","modified_gmt":"2026-03-03T18:01:10","slug":"post-scriptum-sobre-as-sociedades-de-controle","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/post-scriptum-sobre-as-sociedades-de-controle\/","title":{"rendered":"Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_custom_heading text=&#8221;Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%2302658F&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1730905248391{margin-top: 60px !important;}&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<strong>De Gilles Deleuze.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Peter P\u00e1l Pelbart. Introdu\u00e7\u00e3o: CIDAC.<\/strong><\/p>\n<p>Tempo aproximado de leitura: 18 minutos[\/vc_column_text][vc_row_inner][vc_column_inner width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1730976574730{padding-top: 20px !important;padding-right: 20px !important;padding-bottom: 20px !important;padding-left: 20px !important;background-color: #E5E5E5 !important;border-color: #C7080D !important;}&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quase 35 anos, em maio de 1990, o fil\u00f3sofo Gilles Deleuze escrevia um artigo para o n\u00famero 1 de um jornal franc\u00eas intitulado <em>L\u2019autre journal<\/em>, editado entre 1984 e 1993. Neste artigo, <em>Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle<\/em>, Deleuze escreve numa linguagem simples, acess\u00edvel, dirigida a um p\u00fablico mais amplo do que os seus textos habituais, mais herm\u00e9ticos. Este texto parece ter sido escrito como um alerta para uma mudan\u00e7a de fundo, na altura insidiosa, das nossas sociedades. Partindo do trabalho de Michel Foucault sobre as &#8220;sociedades disciplinares&#8221;, Deleuze argumenta que o modelo de controle social est\u00e1 a mudar, deixando de ser dominado por institui\u00e7\u00f5es fechadas, como escolas, f\u00e1bricas e pris\u00f5es, em benef\u00edcio de processos e dispositivos mais flex\u00edveis, dispersos e cont\u00ednuos, que denomina de \u201csociedade de controle\u201d, um termo criado pelo escritor alucinado da <em>beat generation<\/em>, William Burrough. Neste texto Deleuze estabelece uma rela\u00e7\u00e3o muito clara entre o advento da sociedade de controle e a muta\u00e7\u00e3o do capitalismo, na sua transi\u00e7\u00e3o \u201cda f\u00e1brica para a empresa\u2026\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vision\u00e1rio, muitos dos exemplos que evoca para ilustrar a sociedade de controle fazem parte, hoje, do nosso dia a dia como quando, neste artigo, refere que \u201c<em>F\u00e9lix Guattari imaginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, gra\u00e7as a um cart\u00e3o eletr\u00f4nico (dividual) que abriria as barreiras; mas o cart\u00e3o poderia tamb\u00e9m ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora; o que conta n\u00e3o \u00e9 a barreira, mas o computador que deteta a posi\u00e7\u00e3o de cada um, l\u00edcita ou il\u00edcita, e opera uma modula\u00e7\u00e3o universal.<\/em>\u201d Foi precisamente este dispositivo que foi experimentado este ano no quadro dos Jogos Ol\u00edmpicos de Paris, com um controle dos fluxos humanos gerido por QR-codes, regulando e restringindo o acesso a certas zonas da cidade\u2026 Lembramo-nos tamb\u00e9m das palavras de Patrick Lelay, CEO do principal canal privado de televis\u00e3o franc\u00eas, que assumia descaradamente num encontro empresarial sobre \u201cOs desafios das empresas num contexto de mudan\u00e7a\u201d, em 2004: \u201c<em>para que uma mensagem seja bem recebida, o c\u00e9rebro do telespectador deve estar dispon\u00edvel. Os nossos programas t\u00eam por voca\u00e7\u00e3o de o tornar dispon\u00edvel: isto \u00e9, de o divertir, de o relaxar, para prepar\u00e1-lo entre duas mensagens. O que vendemos \u00e0 Coca Cola \u00e9 tempo de c\u00e9rebro dispon\u00edvel<\/em>\u201d. O r\u00e1pido desenvolvimento das neuroci\u00eancias cognitivas associado aos progressos em mat\u00e9ria de imagiologia m\u00e9dica permitiram confirmar esta cita\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o do neuromarketing, ou seja, da procura de impactos publicit\u00e1rios aos n\u00edveis sub ou pr\u00e9-conscientes. Controle a todos os n\u00edveis!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Republicamos aqui este artigo como fonte de inspira\u00e7\u00e3o para pensar a nossa atualidade. Veremos tamb\u00e9m que quando pensamos no controle, <span style=\"color: #c7080d;\"><strong><a style=\"color: #c7080d;\" href=\"https:\/\/philipdick.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Philip K. Dick<\/a><\/strong><\/span> nunca est\u00e1 muito longe&#8230;<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][vc_column_inner width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/vimeo.com\/407519982&#8243; el_aspect=&#8221;43&#8243; css=&#8221;&#8221;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1730905457438{margin-top: -20px !important;}&#8221;]<span style=\"color: #02658f;\"><strong>Under controle<\/strong><\/span>, de Bruno Raymond-Damasio, com textos de Alain Damasio.[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_custom_heading text=&#8221;I. Hist\u00f3rico&#8221; font_container=&#8221;tag:h2|text_align:left|color:%23C7080D&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1731085960375{margin-top: 20px !important;}&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foucault situou as sociedades disciplinares nos s\u00e9culos VIII e XIX; atingem seu apogeu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Elas procedem \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos grandes meios de confinamento. O indiv\u00edduo n\u00e3o cessa de passar de um espa\u00e7o fechado a outro, cada um com suas leis: primeiro a fam\u00edlia, depois a escola (&#8220;voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais na sua fam\u00edlia&#8221;), depois a caserna (&#8220;voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais na escola&#8221;), depois a f\u00e1brica, de vez em quando o hospital, eventualmente a pris\u00e3o, que \u00e9 o meio de confinamento por excel\u00eancia. \u00c9 a pris\u00e3o que serve de modelo anal\u00f3gico: a hero\u00edna de Europa 51 pode exclamar, ao ver oper\u00e1rios, &#8220;pensei estar vendo condenados&#8230;&#8221;. Foucault analisou muito bem o projeto ideal dos meios de confinamento, vis\u00edvel especialmente na f\u00e1brica: concentrar; distribuir no espa\u00e7o; ordenar no tempo; compor no espa\u00e7o-tempo uma for\u00e7a produtiva cujo efeito deve ser superior \u00e0 soma das for\u00e7as elementares. Mas o que Foucault tamb\u00e9m sabia era da brevidade deste modelo: ele sucedia \u00e0s sociedades de soberania cujo objetivo e fun\u00e7\u00f5es eram completamente diferentes (a\u00e7ambarcar, mais do que organizar a produ\u00e7\u00e3o, decidir sobre a morte mais do que gerir a vida); a transi\u00e7\u00e3o foi feita progressivamente, e Napole\u00e3o parece ter operado a grande convers\u00e3o de uma sociedade \u00e0 outra. Mas as disciplinas, por sua vez, tamb\u00e9m conheceriam uma crise, em favor de novas for\u00e7as que se instalavam lentamente e que se precipitariam depois da Segunda Guerra mundial: sociedades disciplinares \u00e9 o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos mais, o que deix\u00e1vamos de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, pris\u00e3o, hospital, f\u00e1brica, escola, fam\u00edlia. A fam\u00edlia \u00e9 um &#8220;interior&#8221;, em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional, etc. Os ministros competentes n\u00e3o param de anunciar reformas supostamente necess\u00e1rias. Reformar a escola, reformar a ind\u00fastria, o hospital, o ex\u00e9rcito, a pris\u00e3o; mas todos sabem que essas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o condenadas, num prazo mais ou menos longo. Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, at\u00e9 a instala\u00e7\u00e3o das novas for\u00e7as que se anunciam. S\u00e3o as sociedades de controle que est\u00e3o substituindo as sociedades disciplinares. &#8220;Controle&#8221; \u00e9 o nome que Burroughs prop\u00f5e para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro pr\u00f3ximo. Paul Virillo tamb\u00e9m analisa sem parar as formas ultra r\u00e1pidas de controle ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas que operavam na dura\u00e7\u00e3o de um sistema fechado. N\u00e3o cabe invocar produ\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas extraordin\u00e1rias, forma\u00e7\u00f5es nucleares, manipula\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, ainda que elas sejam destinadas a intervir no novo processo. N\u00e3o se deve perguntar qual \u00e9 o regime mais duro, ou o mais toler\u00e1vel, pois \u00e9 em cada um deles que se enfrentam as libera\u00e7\u00f5es e as sujei\u00e7\u00f5es. Por exemplo, na crise do hospital como meio de confinamento, a setoriza\u00e7\u00e3o, os hospitais-dia, o atendimento a domic\u00edlio puderam marcar de in\u00edcio novas liberdades, mas tamb\u00e9m passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos. N\u00e3o cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_custom_heading text=&#8221;II. L\u00f3gica&#8221; font_container=&#8221;tag:h2|text_align:left|color:%23C7080D&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1730905734278{margin-top: 20px !important;}&#8221;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1731085984591{margin-top: 20px !important;}&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os diferentes internatos ou meios de confinamento pelos quais passa o indiv\u00edduo s\u00e3o vari\u00e1veis independentes: sup\u00f5e-se que a cada vez ele recomece do zero, e a linguagem comum a todos esses meios existe, mas \u00e9 anal\u00f3gica. Ao passo que os diferentes modos de controle, os controlatos, s\u00e3o varia\u00e7\u00f5es insepar\u00e1veis, formando um sistema de geometria vari\u00e1vel cuja linguagem \u00e9 num\u00e9rica (o que n\u00e3o quer dizer necessariamente bin\u00e1ria). Os confinamentos s\u00e3o moldes, distintas moldagens, mas os controles s\u00e3o uma modula\u00e7\u00e3o, como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro. Isto se v\u00ea claramente na quest\u00e3o dos sal\u00e1rios: a f\u00e1brica era um corpo que levava suas for\u00e7as internas a um ponto de equil\u00edbrio, o mais alto poss\u00edvel para a produ\u00e7\u00e3o, o mais baixo poss\u00edvel para os sal\u00e1rios; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a f\u00e1brica, e a empresa \u00e9 uma alma, um g\u00e1s. Sem d\u00favida a f\u00e1brica j\u00e1 conhecia o sistema de pr\u00eamios mas a empresa se esfor\u00e7a mais profundamente em impor uma modula\u00e7\u00e3o para cada sal\u00e1rio, num estado de perp\u00e9tua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e col\u00f3quios extremamente c\u00f3micos. Se os jogos de televis\u00e3o mais idiotas t\u00eam tanto sucesso \u00e9 porque exprimem adequadamente a situa\u00e7\u00e3o de empresa. A f\u00e1brica constitu\u00eda os indiv\u00edduos em um s\u00f3 corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resist\u00eancia; mas a empresa introduz o tempo todo uma rivalidade inexpi\u00e1vel como s\u00e3 emula\u00e7\u00e3o, excelente motiva\u00e7\u00e3o que contrap\u00f5e os indiv\u00edduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo. O princ\u00edpio modulador do &#8220;sal\u00e1rio por m\u00e9rito&#8221; tenta a pr\u00f3pria Educa\u00e7\u00e3o nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a f\u00e1brica, a forma\u00e7\u00e3o permanente tende a substituir a escola, e o controle cont\u00ednuo substitui o exame. Este \u00e9 o meio mais garantido de entregar a escola \u00e0 empresa.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_single_image image=&#8221;7442&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221; css=&#8221;&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas sociedades de disciplina n\u00e3o se parava de recome\u00e7ar (da escola \u00e0 caserna, da caserna \u00e0 f\u00e1brica), enquanto nas sociedades de controle nunca se termina nada, a empresa, a forma\u00e7\u00e3o, o servi\u00e7o sendo os estados metaest\u00e1veis e coexistentes de uma mesma modula\u00e7\u00e3o, como que de um deformador universal. Kafka, que j\u00e1 se instalava no cruzamento dos dois tipos de sociedade, descreveu em <em>O processo<\/em> as formas jur\u00eddicas mais tem\u00edveis: a quita\u00e7\u00e3o aparente das sociedades disciplinares (entre dois confinamentos), a morat\u00f3ria ilimitada das sociedades de controle (em varia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua) s\u00e3o dois modos de vida jur\u00eddicos muito diferentes, e se nosso direito, ele mesmo em crise, hesita entre ambos, \u00e9 porque sa\u00edmos de um para entrar no outro. As sociedades disciplinares t\u00eam dois polos: a assinatura que indica o indiv\u00edduo, e o n\u00famero de matr\u00edcula que indica sua posi\u00e7\u00e3o numa massa. \u00c9 que as disciplinas nunca viram incompatibilidade entre os dois, e \u00e9 ao mesmo tempo que o poder \u00e9 massificante e individuante, isto \u00e9, constitui num corpo \u00fanico aqueles sobre os quais se exerce, e molda a individualidade de cada membro do corpo (Foucault via a origem desse duplo cuidado no poder pastoral do sacerdote &#8211; o rebanho e cada um dos animais &#8211; mas o poder civil, por sua vez, iria converter-se em &#8220;pastor&#8221; laico por outros meios). Nas sociedades de controle, ao contr\u00e1rio, o essencial n\u00e3o \u00e9 mais uma assinatura e nem um n\u00famero, mas uma cifra: a cifra \u00e9 uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares s\u00e3o reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integra\u00e7\u00e3o quanto da resist\u00eancia). A linguagem num\u00e9rica do controle \u00e9 feita de cifras, que marcam o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, ou a rejei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se est\u00e1 mais diante do par massa-indiv\u00edduo. Os indiv\u00edduos tornaram-se &#8220;dividuais&#8221;, divis\u00edveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou &#8220;bancos&#8221;. \u00c9 o dinheiro que talvez melhor exprima a distin\u00e7\u00e3o entre as duas sociedades, visto que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro &#8211; que servia de medida padr\u00e3o -, ao passo que o controle remete a trocas flutuantes, modula\u00e7\u00f5es que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda. A velha toupeira monet\u00e1ria \u00e9 o animal dos meios de confinamento, mas a serpente o \u00e9 das sociedades de controle. Passamos de um animal a outro, da toupeira \u00e0 serpente, no regime em que vivemos, mas tamb\u00e9m na nossa maneira de viver e nas nossas rela\u00e7\u00f5es com outrem. O homem da disciplina era um produtor descont\u00ednuo de energia, mas o homem do controle \u00e9 antes ondulat\u00f3rio, funcionando em \u00f3rbita, num feixe cont\u00ednuo. Por toda parte o surf j\u00e1 substituiu os antigos esportes.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;7695&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1730905980708{margin-top: 10px !important;}&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de m\u00e1quina, n\u00e3o porque as m\u00e1quinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utiliz\u00e1-las. As antigas sociedades de soberania manejavam m\u00e1quinas simples, alavancas, roldanas, rel\u00f3gios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento m\u00e1quinas energ\u00e9ticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por m\u00e1quinas de uma terceira esp\u00e9cie, m\u00e1quinas de inform\u00e1tica e computadores, cujo perigo passivo \u00e9 a interfer\u00eancia, e o ativo a pirataria e a introdu\u00e7\u00e3o de v\u00edrus. N\u00e3o \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica sem ser, mais profundamente, uma muta\u00e7\u00e3o do capitalismo. \u00c9 uma muta\u00e7\u00e3o j\u00e1 bem conhecida que pode ser resumida assim: o capitalismo do s\u00e9culo XIX \u00e9 de concentra\u00e7\u00e3o, para a produ\u00e7\u00e3o, e de propriedade. Por conseguinte, erige a f\u00e1brica como meio de confinamento, o capitalista sendo o propriet\u00e1rio dos meios de produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m eventualmente propriet\u00e1rio de outros espa\u00e7os concebidos por analogia (a casa familiar do oper\u00e1rio, a escola). Quanto ao mercado, \u00e9 conquistado ora por especializa\u00e7\u00e3o, ora por coloniza\u00e7\u00e3o, ora por redu\u00e7\u00e3o dos custos de produ\u00e7\u00e3o. Mas atualmente o capitalismo n\u00e3o \u00e9 mais dirigido para a produ\u00e7\u00e3o, relegada com frequ\u00eancia \u00e0 periferia do Terceiro Mundo, mesmo sob as formas complexas do t\u00eaxtil, da metalurgia ou do petr\u00f3leo. \u00c9 um capitalismo de sobre-produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o compra mais mat\u00e9ria-prima e j\u00e1 n\u00e3o vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta pe\u00e7as destacadas. O que ele quer vender s\u00e3o servi\u00e7os, e o que quer comprar s\u00e3o a\u00e7\u00f5es. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um capitalismo dirigido para a produ\u00e7\u00e3o, mas para o produto, isto \u00e9, para a venda ou para o mercado. Por isso ele \u00e9 essencialmente dispersivo, e a f\u00e1brica cedeu lugar \u00e0 empresa. A fam\u00edlia, a escola, o ex\u00e9rcito, a f\u00e1brica n\u00e3o s\u00e3o mais espa\u00e7os anal\u00f3gicos distintos que convergem para um propriet\u00e1rio, Estado ou pot\u00eancia privada, mas s\u00e3o agora figuras cifradas, deform\u00e1veis e transform\u00e1veis, de uma mesma empresa que s\u00f3 tem gerentes. At\u00e9 a arte abandonou os espa\u00e7os fechados para entrar nos circuitos abertos do banco. As conquistas de mercado se fazem por tomada de controle e n\u00e3o mais por forma\u00e7\u00e3o de disciplina, por fixa\u00e7\u00e3o de cota\u00e7\u00f5es mais do que por redu\u00e7\u00e3o de custos, por transforma\u00e7\u00e3o do produto mais do que por especializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. A corrup\u00e7\u00e3o ganha a\u00ed uma nova pot\u00eancia. O servi\u00e7o de vendas tornou-se o centro ou a &#8220;alma&#8221; da empresa. Informam-nos que as empresas t\u00eam uma alma, o que \u00e9 efetivamente a not\u00edcia mais terrificante do mundo. O marketing \u00e9 agora o instrumento de controle social, e forma a ra\u00e7a impudente dos nossos senhores. O controle \u00e9 de curto prazo e de rota\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, mas tamb\u00e9m cont\u00ednuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa dura\u00e7\u00e3o, infinita e descont\u00ednua. O homem n\u00e3o \u00e9 mais o homem confinado, mas o homem endividado. \u00c9 verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema mis\u00e9ria de tr\u00eas quartos da humanidade, pobres demais para a d\u00edvida, numerosos demais para o confinamento: o controle n\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 que enfrentar a dissipa\u00e7\u00e3o das fronteiras, mas tamb\u00e9m a explos\u00e3o dos guetos e favelas.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_custom_heading text=&#8221;III. Programa&#8221; font_container=&#8221;tag:h2|text_align:left|color:%23C7080D&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221; css=&#8221;&#8221;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1730905721473{margin-top: 20px !important;}&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 necessidade de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para se conceber um mecanismo de controle que d\u00ea, a cada instante, a posi\u00e7\u00e3o de um elemento em espa\u00e7o aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletr\u00f3nica). F\u00e9lix Guattari imaginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, gra\u00e7as a um cart\u00e3o eletr\u00f3nico (dividual) que abriria as barreiras; mas o cart\u00e3o poderia tamb\u00e9m ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora; o que conta n\u00e3o \u00e9 a barreira, mas o computador que detecta a posi\u00e7\u00e3o de cada um, l\u00edcita ou il\u00edcita, e opera uma modula\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo s\u00f3cio-t\u00e9cnico dos mecanismos de controle, apreendidos em sua aurora, deveria ser categorial e descrever o que j\u00e1 est\u00e1 em vias de ser implantado no lugar dos meios de confinamento disciplinares, cuja crise todo mundo anuncia. Pode ser que meios antigos, tomados de empr\u00e9stimo \u00e0s antigas sociedades de soberania, retornem \u00e0 cena, mas devidamente adaptados. O que conta \u00e9 que estamos no in\u00edcio de alguma coisa. No regime das pris\u00f5es: a busca de penas &#8220;substitutivas&#8221;, ao menos para a pequena delinqu\u00eancia, e a utiliza\u00e7\u00e3o de coleiras eletr\u00f3nicas que obrigam o condenado a ficar em casa em certas horas. No regime das escolas: as formas de controle cont\u00ednuo, avalia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, e a a\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o permanente sobre a escola, o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdu\u00e7\u00e3o da &#8220;empresa&#8221; em todos os n\u00edveis de escolaridade. No regime dos hospitais: a nova medicina &#8220;sem m\u00e9dico nem doente&#8221;, que resgata doentes potenciais e sujeitos a risco, o que de modo algum demonstra um progresso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 individua\u00e7\u00e3o, como se diz, mas substitui o corpo individual ou num\u00e9rico pela cifra de uma mat\u00e9ria &#8220;dividual&#8221; a ser controlada. No regime da empresa: as novas maneiras de tratar o dinheiro, os produtos e os homens, que j\u00e1 n\u00e3o passam pela antiga forma-f\u00e1brica. S\u00e3o exemplos fr\u00e1geis, mas que permitiriam compreender melhor o que se entende por crise das institui\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, a implanta\u00e7\u00e3o progressiva e dispersa de um novo regime de domina\u00e7\u00e3o. Uma das quest\u00f5es mais importantes diria respeito \u00e0 inaptid\u00e3o dos sindicatos: ligados, por toda sua hist\u00f3ria, \u00e0 luta contra disciplinas ou nos meios de confinamento, conseguir\u00e3o adaptar-se ou ceder\u00e3o o lugar a novas formas de resist\u00eancia contra as sociedades de controle? Ser\u00e1 que j\u00e1 se pode apreender esbo\u00e7os dessas formas por vir, capazes de combater as alegrias do marketing? Muitos jovens pedem estranhamente para serem &#8220;motivados&#8221;, e solicitam novos est\u00e1gios e forma\u00e7\u00e3o permanente; cabe a eles descobrir a que est\u00e3o sendo levados a servir, assim como seus antecessores descobriram, n\u00e3o sem dor, a finalidade das disciplinas. Os an\u00e9is de uma serpente s\u00e3o ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][lab_button title=&#8221;Comentar&#8221; type=&#8221;standard&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Foutraseconomias.pt%2Foutrasec%2Fcomentarios%2F%20|target:_blank&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1730976592685{margin-bottom: 30px !important;}&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_custom_heading text=&#8221;Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle&#8221; font_container=&#8221;tag:h1|text_align:left|color:%2302658F&#8221; google_fonts=&#8221;font_family:Anton%3Aregular|font_style:400%20regular%3A400%3Anormal&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1730905248391{margin-top: 60px !important;}&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]De Gilles Deleuze. Tradu\u00e7\u00e3o de Peter P\u00e1l Pelbart. Introdu\u00e7\u00e3o: CIDAC. Tempo aproximado de leitura: 18 minutos[\/vc_column_text][vc_row_inner][vc_column_inner width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text css=&#8221;.vc_custom_1730976574730{padding-top: 20px !important;padding-right: 20px !important;padding-bottom: 20px !important;padding-left: 20px !important;background-color: #E5E5E5 !important;border-color: #C7080D !important;}&#8221;] H\u00e1 quase 35 anos, em maio de 1990, o fil\u00f3sofo Gilles Deleuze escrevia&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7442,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"h5ap_radio_sources":[],"footnotes":""},"portfolio_category":[239],"portfolio_tag":[],"class_list":["post-7446","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-revistan4"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/7446","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7446"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/7446\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10342,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/7446\/revisions\/10342"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7446"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=7446"},{"taxonomy":"portfolio_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/outraseconomias.pt\/outrasec\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tag?post=7446"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}