O Banco de Tempo em contexto escolar:

as suas muitas potencialidades e alguns desafios – o caso da Escola das Piscinas

Eliana Madeira, Graal

Este texto contou com a preciosa colaboração de Galiano Amaral, Jennifer Oliveira, Kayllany Morais, Mariama Baldé e Samuel Carilú

Imagens: Joana Corker, Francisca Almodovar Faria, Carlos Guerreiro e Jennifer Oliveira

Tempo aproximado de leitura: 15 minutos

Desde o início do ano letivo de 2025-2026, funciona na Escola das Piscinas, nos Olivais, um Banco de Tempo. Os seus membros são cerca de vinte jovens, rapazes e raparigas com idades entre os 13 e os 16 anos, que estudam nessa escola, e também algumas pessoas adultas que têm vindo a facilitar ou a acompanhar o processo.

Esta dinâmica, apoiada pelo Graal, enquadra-se no projeto “Um Bairro deste Tempo”, promovido pela Associação Mulheres sem Fronteiras, em parceria com o Graal e o Agrupamento de Escolas Piscinas-Olivais, em Lisboa, com o apoio do programa BIP/ZIP da Câmara Municipal de Lisboa.

Na candidatura ao projeto definia-se como objetivo “valorizar os diferentes saberes, questionar o consumismo e o materialismo enquanto paradigmas sociais dominantes e promover uma convivência pacífica e o interesse pela escola”.

Este texto organiza-se da seguinte forma: começaremos por apresentar brevemente o Banco de Tempo e, num segundo momento, descreveremos o percurso e o funcionamento do Banco de Tempo da Escola das Piscinas. De seguida, apresentamos as ideias principais que surgiram sobre os benefícios e as potencialidades de um Banco de Tempo em contexto escolar, identificadas em conversas com cinco jovens membros do Banco de Tempo da Escola das Piscinas. Esta secção foi organizada a partir das opiniões que estes/as jovens partilharam, tendo também contribuído para a validação das ideias-chave que extraímos dos seus discursos. Terminamos com a partilha de alguns desafios para as pessoas adultas que se têm empenhado na dinamização do processo.

O Banco de Tempo

O Banco de Tempo é um sistema de trocas baseado na partilha de saberes e serviços entre os seus membros.

Neste sistema, a unidade de valor e de troca é a hora e não circula dinheiro. O tempo de todas as pessoas é valorizado de forma igual, independentemente do serviço prestado, e pressupõe-se que todos/as possam dar e receber tempo. Desafiam-se, assim, as dicotomias entre prestadores e utilizadores de serviços. Todas as pessoas que participam são estimuladas a assumir estas duas posições, em diferentes momentos, reconhecendo-se que o tempo de todas as pessoas é valioso e que todas podem beneficiar outras pessoas usando o seu tempo.

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Atualmente, existem mais de vinte bancos de tempo em Portugal, distribuídos por diferentes zonas do país e em diversos contextos, integrando uma rede coordenada pelo Graal.

Em Portugal, atualmente, existe apenas esta experiência em contexto escolar, mas já houve outras no passado, nomeadamente na Póvoa de Varzim e no Funchal. Noutros países também há Bancos de Tempo em funcionamento em contexto escolar, sendo de destacar o trabalho desenvolvido na Catalunha.

O Banco de Tempo da Escola das Piscinas

Numa primeira fase, o Graal propôs um conjunto de atividades de exploração da proposta do Banco de Tempo: a sua história, os seus objetivos, princípios e modos de funcionamento.

Em seguida, o grupo tomou a decisão de avançar com a criação do Banco de Tempo e definiu as regras que iria adotar na organização do seu Banco.

Seguiu-se um processo de identificação dos serviços que cada membro gostaria de oferecer e de receber.

Os serviços que podem ser trocados neste Banco são diversos. Entre eles encontram-se, por exemplo, ensinar a fazer pulseiras, tirar fotografias, ajudar em trabalhos escolares, ensinar ou fazer companhia a andar de bicicleta, jogar Roblox, ensinar a fazer um podcast, ensinar a teoria da cor, fazer tranças, fazer companhia para ir ao cinema, passear o cão ou ajudar a estudar.

Os membros do Banco de Tempo têm realizado trocas entre si, mas também têm desenvolvido atividades para a escola e para a comunidade em geral, como dinamizar o quadro informativo da escola, apanhar folhas no espaço exterior, organizar uma iniciativa de sensibilização sobre violência no namoro ou contar histórias a turmas de crianças mais novas.

As sessões do Banco de Tempo são semanais e têm a duração aproximada de 90 minutos.

As potencialidades do Banco de Tempo – a perspetiva de jovens membros

Nas linhas que se seguem apresentamos as perspetivas de cinco jovens sobre os benefícios da participação num Banco de Tempo em contexto escolar, agrupadas em torno de algumas ideias-chave, validadas por este grupo.

O Banco de Tempo como espaço de socialização e de aprendizagem da convivência

Um dos aspetos mais valorizados pelo grupo prende-se com a oportunidade de estar com outros/as e conviver:

Eu acho que o banco de tempo é uma coisa legal porque a gente se distrai com os nossos amigos. Em vez de estarmos em casa mexendo no celular ou dormindo, estamos aqui a fazer atividades juntos.

São também valorizadas as competências sociais que se desenvolvem, como podemos ler:

“Aprendemos a ser sociais da forma correta.”

Foi especialmente enfatizado o aprender a lidar com a diversidade, no reconhecimento das forças e das vulnerabilidades individuais:

“Aprendemos a lidar com as pessoas e com as diferenças entre elas.”

“Um banco de tempo pode ser extremamente importante numa escola porque faz os alunos conviverem, aprenderem a lidar com as diferenças e a trabalhar em equipa.”

O Banco de Tempo como espaço de aprendizagem da reciprocidade, da colaboração e do cuidado

Outra dimensão valorizada pelos/as jovens relaciona-se com o modo como o Banco de Tempo promove relações de entreajuda e a aprendizagem da reciprocidade, da colaboração e do cuidado com os/as outros/as:

“O banco de tempo dá a noção de que, se eu fui ajudada, também devo ajudar alguém.”

“Aprendemos a cuidar uns dos outros.”

“Penso que quem participa aprende principalmente a colaborar com outras pessoas.”

“Há sempre um momento em que pensamos: no que é que eu posso ajudar alguém?”

Contudo, vários participantes reconheceram que pedir serviços nem sempre é o mais fácil:

“Eu prefiro fazer o caminho mais longo sozinho do que pedir ajuda”

“Às vezes tenho receio de pedir ajuda.”

“para pedir, a gente tem de deixar um pouco o orgulho de lado”.

O Banco de Tempo como espaço de aprendizagens diversas

Os/as jovens destacaram também o valor do Banco de Tempo como espaço onde são possíveis aprendizagens diversas:

“As pessoas fazem trocas e isso é bom para aprender, ter conhecimento.”

“Há muitas coisas que se aprendem que jamais serão faladas em sala de aula (…) há inúmeras atividades que fazemos onde aprendemos coisas que, se não fosse ali, nunca aprenderíamos, como fazer pulseiras ou utilizar uma máquina fotográfica”.

O Banco de Tempo foi também referido como um recurso de apoio ao percurso escolar:

“Há sempre alunos dispostos a dar explicações sobre algumas disciplinas.”

“No banco de tempo podemos utilizar as nossas melhores capacidades para ajudar alguém ou ensinar, como ensinar alguém a pintar de maneira mais harmónica ou a desenhar objetos em 3D…”

O Banco de Tempo como espaço de reconhecimento das capacidades próprias e das outras pessoas

Uma dimensão particularmente valorizada foi a possibilidade de autodescoberta das capacidades individuais:

“Eu sempre me achei meio inútil para as pessoas e o banco de tempo ajudou-me a descobrir algumas capacidades.”

“As pessoas descobrem que têm capacidades incríveis e que podem ajudar outras pessoas”.

Foi também referido o facto de o Banco de Tempo permitir reconhecer saberes e características dos pares, mesmo aquelas menos visíveis no contexto escolar:

“Basicamente o banco de tempo é um lugar onde podemos aprender sobre outras pessoas – posso saber o que uma pessoa faz de melhor e o que ela não faz de melhor, reconhecer as suas qualidades e não qualidades”.

“Na escola, os alunos são muitas vezes vistos pelas notas, enquanto isso há artistas que ficam escondidos.”

“Normalmente, nós julgamos muito as pessoas na escola com base nos resultados dela; eu tenho um amigo que vai ao banco de tempo que nunca foi de se comportar bem em sala de aula nem de ter boas notas, mas no banco de tempo eu vi o tanto que ele gosta de ajudar as pessoas, e isso mudou bastante a maneira como eu o via.”

O Banco de Tempo parece ajudar a que cada um/a tenha um olhar mais otimista sobre si mesmo/a e sobre os seus pares, inclusive relativamente a elementos do grupo que têm um estatuto mais vulnerável.

O Banco de Tempo como espaço de experimentação de uma outra economia e de questionamento da centralidade do dinheiro na nossa sociedade

As trocas que se realizam no Banco de Tempo não envolvem dinheiro nem valorizações diferenciadas do tempo das pessoas, o que distingue claramente estas trocas das que se realizam no mercado.
A experimentação da dinâmica do Banco de Tempo pode funcionar como um ponto de partida para a relativização da excessiva importância atribuída ao dinheiro nas nossas sociedades:

“O dinheiro ocupa muito a cabeça das pessoas, chega a trazer doenças.”

“O dinheiro não é tão bom assim, porque a ganância sobe e vai querendo muito dinheiro, cada vez mais…”

Nos diálogos surgiu também a ideia de que o Banco de Tempo pode facilitar o reconhecimento da possibilidade de se encontrarem respostas a necessidades individuais e coletivas fora do mercado:

“Os alunos aprendem [no Banco de Tempo] que nem tudo se resume a dinheiro; muito pelo contrário, o banco de tempo faz-nos questionar por que a nossa sociedade é assim, enquanto conseguimos fazer atividades tão giras e conviver com o que temos, sem gastar dinheiro algum.”

“O banco de tempo é um lugar onde eu aprendi que nem sempre o dinheiro compra tudo (…) O dinheiro não traz paz, nem compra saúde.”

Desafios no desenvolvimento de um Banco de Tempo em contexto escolar

Identificámos anteriormente algumas potencialidades e benefícios do Banco de Tempo em contexto escolar, partindo dos contributos de cinco jovens membros desse Banco de Tempo. Partilhamos o reconhecimento dessas potencialidades, mas, evitando a tentação de romantizar a experiência, apresentamos também algumas reflexões sobre desafios que, enquanto pessoas adultas facilitadoras do processo, enfrentamos neste Banco de Tempo em contexto escolar.

Em coerência com os princípios e com a filosofia subjacentes ao Banco de Tempo, espera-se que, enquanto pessoas adultas e facilitadoras do processo, colaboremos com o grupo, estabelecendo relações tão horizontais quanto possível com os seus elementos. Importa reconhecer que a redistribuição do poder entre pessoas adultas e jovens, contrariando as relações hierárquicas habitualmente estabelecidas, é particularmente desafiante numa escola. Efetivamente, existe uma forte expectativa de que as pessoas adultas sejam capazes de manter a disciplina e de regular o comportamento dos/as jovens, restringindo o rir, o falar alto, o mover-se livremente ou o não acatar de imediato o que é dito pelas pessoas adultas.

Reconhecemos que uma das riquezas do Banco de Tempo em contexto escolar reside na oportunidade de participação e que existe, da nossa parte, o desejo e a expectativa de que o grupo se comprometa e se responsabilize pela gestão do Banco de Tempo. No entanto, a adesão à proposta, o interesse em organizar atividades e trocas, e o compromisso com uma agenda que muitas vezes não é a sua podem não ser “automáticos”. Quando isso acontece, e gera em nós alguma frustração, é importante resistir à tentação de “dramatizar”, de exprimir a nossa decepção ou fazer juízos de valor, reconhecendo como normal a existência de diferentes níveis de envolvimento e o facto de alguns/algumas jovens precisarem de mais tempo, apoio, estímulo e/ou confiança para participarem de forma mais comprometida.

Importa que sejamos capazes de criar oportunidades continuadas de participação, bem como de acompanhar, de forma flexível e adaptada, o percurso de cada um/a no Banco de Tempo, cultivando relações de confiança, respeito e abertura e garantindo que todas as pessoas se sintam acolhidas, aceites e reconhecidas no seu valor.