Dívida, Dignidade e Esperança

as propostas da Campanha Turn Debt into Hope

Entrevista a Alfonso Picella, Caritas Internationalis. Tradução: CIDAC

Imagens: Campanha Turn Debt into Hope, Caritas Internationalis
Tempo aproximado de leitura: 25 minutos

Desde o início de 2025 que a Caritas Internationalis lidera a campanha global “Transformar Dívida em Esperança“, mobilizando centenas de organizações da sociedade civil e centenas de milhares de cidadãos e cidadãs num apelo mundial ao alívio de dívidas financeiras injustas. Convidámos o coordenador da campanha para conversar connosco sobre as motivações, reivindicações, conquistas e próximos passos da campanha.

A campanha “Transformar Dívida em Esperança” teve início no âmbito do Ano Jubilar, celebrado em 2025 pela Igreja Católica. Com raízes bíblicas, o Jubileu proposto no Antigo Testamento assenta em três práticas fundamentais: o perdão das dívidas, a libertação das pessoas oprimidas e a restituição de terras às famílias. De que forma a campanha “Transformar Dívidas em Esperança” atualiza e traduz estes princípios do Jubileu no contexto da economia global e do sistema financeiro internacional?

Com a encíclica Spes Non Confundit (“A esperança não engana”), o Papa Francisco delineou o que poderá significar um Ano Jubilar em 2025 num mundo marcado por uma profunda polarização política, fragmentação social e crescente insegurança económica. Mais do que um marco puramente espiritual, o Jubileu foi concebido como um momento para confrontar as estruturas que ainda ferem, tanto as pessoas como o planeta, e para promover práticas como o perdão de dívidas, imaginando formas mais justas e sustentáveis de vivermos juntos/as como uma só família humana.

Ao longo de 2024, a Caritas Internationalis concluiu a sua campanha “Juntos”, que procurou traduzir a Laudato Si’ em ações práticas, promovendo a ecologia integral – a ideia de que o cuidado com as pessoas pobres e o cuidado com a nossa casa comum são indissociáveis. Esta campanha não se limitou a sensibilizar; ela também fortaleceu o compromisso pastoral, a organização comunitária e a capacidade de advocacia em toda a rede Caritas no mundo. Com o aproximar do Jubileu, este trabalho de base criou um terreno fértil para reavivar os princípios bíblicos do Jubileu: perdão da dívida, libertação e restauração. Estes princípios foram depois incorporados na campanha “Transformar a Dívida em Esperança”, não como um afastamento de “Juntos”, mas como um aprofundamento natural, aplicando a perspetiva da ecologia integral de forma mais incisiva à crise global da dívida.

Desta forma, a campanha poderia enraizar-se firmemente na antiga tradição do Jubileu, servindo também como lente de sensibilização para analisar a economia global atual à luz da Doutrina Social da Igreja Católica. Neste espírito, o Papa Francisco reafirmou consistentemente que o alívio da dívida não é um ato de caridade, mas uma questão de justiça (Spes Non Confundit 16) num sistema financeiro internacional que, com demasiada frequência, aprisiona os países em ciclos de austeridade, subinvestimento e degradação ecológica, particularmente após crises para as quais pouco têm contribuído, como desastres climáticos ou choques económicos globais.

A ideia de libertação e “recomeço” do Jubileu não se refere apenas à renovação e conversão pessoal, mas também aos países sobrecarregados por dívidas injustas e insustentáveis. Neste contexto, “recomeço” não deve ser entendido como um mero ajustamento financeiro técnico, mas como uma reordenação moral de prioridades, que coloca a dignidade humana e o bem comum acima do pagamento da dívida a qualquer custo. Isto é importante porque o elevado endividamento público conduz frequentemente à redução do investimento na saúde, na educação, na proteção social e nas infraestruturas, impondo condições de austeridade que, em última análise, recaem sobre as pessoas que têm pouca ou nenhuma influência na gestão dos recursos públicos, especialmente as mais vulneráveis da sociedade.

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Assim, quando a iniciativa “Transformar Dívida em Esperança” foi oficialmente lançada em dezembro de 2024, os princípios do Jubileu tornaram-se tanto uma bússola moral como uma agenda prática de ação. Fundamentaram a defesa do alívio da dívida soberana e a reforma de regras financeiras globais obsoletas que já não servem o bem comum, incluindo processos de reestruturação da dívida mais justos, suspensão de pagamentos em tempos de crise e regras financeiras que reconheçam a vulnerabilidade climática. Além disso, possibilitaram a formação de uma ampla “coligação de vontades”, reunindo cerca de 200 organizações de redes católicas e de outras tradições cristãs, parceiros inter-religiosos e da sociedade civil em torno de um compromisso partilhado com a justiça económica e a dignidade humana.

Uma característica distintiva da campanha tem sido o seu envolvimento com a ideia de “dívida ecológica”. Este conceito ajuda-nos a explicar como é que séculos de extração de recursos e de emissões de carbono desproporcionalmente elevadas por parte dos países mais ricos criaram um desequilíbrio que pesa agora fortemente sobre os países mais pobres. Esta não é apenas uma reivindicação moral; acarreta também implicações políticas reais, incluindo um financiamento climático mais robusto e mecanismos para suspender o pagamento da dívida quando os países são atingidos por choques climáticos. Neste sentido, a dívida ecológica liga a justiça climática diretamente à justiça económica e situa o alívio da dívida dentro de um processo mais vasto de reconhecimento e ação concreta.

Agora, sob o pontificado do Papa Leão XIV, este compromisso foi reafirmado com renovada clareza e continuidade. A preocupação com as pessoas pobres e com a sua dignidade permanece no centro do seu pontificado, visto que ele tem insistido na necessidade de desmantelar as estruturas económicas injustas, mobilizando simultaneamente a conversão moral, o conhecimento científico e políticas públicas eficazes para abordar as causas profundas da pobreza. Isto é particularmente urgente, dado que a atual arquitetura financeira internacional foi concebida para um mundo muito diferente e necessita de uma profunda renovação.

Assim, no geral, o Ano do Jubileu ofereceu – e continua a oferecer – uma oportunidade simbólica, pública e política para promover esta transformação, convertendo a dívida numa esperança genuína para as pessoas, as comunidades e a nossa casa comum.

Na tradição cristã, o Jubileu é um tempo de conversão, reconciliação e libertação – um apelo à justiça social, especialmente em relação à pobreza e à dívida. Não se limita apenas a questões económicas, mas também possui uma forte dimensão moral e relacional. Qual a perspetiva ética sobre a atual crise global da dívida apresentada pela campanha?

Exatamente, a campanha “Transformar Dívida em Esperança” não vê a crise da dívida global apenas como uma questão económica. É muito mais do que isso. Pense nisto: numa altura em que os orçamentos da ajuda externa estão a ser cortados, as tarifas estão a subir e as despesas com a defesa estão a disparar, como podem os países endividados continuar a proteger as pessoas mais vulneráveis? É exatamente isto que propõe a campanha global do Jubileu da Caritas Internationalis sobre a dívida. O alívio da dívida não é caridade; é justiça. Os sistemas económicos não devem funcionar apenas para os poucos que estão no topo – devem servir a dignidade humana e reforçar a ideia de solidariedade internacional. Isto é feito ao convocar os países mais ricos a assumirem a responsabilidade, não só pela exploração dos recursos naturais no passado, mas também no presente, quando as suas emissões afetam aqueles/as que são muito menos responsáveis pela crise climática. Liga-se diretamente à dignidade humana, segundo a qual cada política, cada decisão financeira, deve visar a proteção dos meios de subsistência das pessoas, garantindo que todos/as têm acesso à saúde, à educação e à proteção social.

Mas eis a parte que considero mais impactante: a campanha defende uma cultura de encontro. A verdadeira justiça não se constrói a distância; nasce do diálogo, da escuta e do trabalho conjunto de forma sinodal. Partilhar conhecimento e aprender com diferentes contextos regionais e locais, cocriando soluções, é o que torna a mudança tangível e mais fácil de assimilar. Neste sentido, a Caritas Internationalis está numa posição privilegiada para fazer este apelo à justiça no que diz respeito à dívida. Com o seu alcance global, amplificou as vozes das pessoas mais afetadas, ajudando o mundo a compreender a complexidade da dívida e da injustiça social, e a importância de enfrentarmos estas questões em conjunto, conscientes de que problemas complexos exigem pensamento coletivo e que este só pode ter sucesso se todas as pessoas e organizações envolvidas trabalharem em uníssono.

A Caritas está presente em 162 países e trabalha com milhões de pessoas em todo o mundo. Como é que o peso da dívida afeta concretamente as populações do Sul Global? Pode dar exemplos específicos, particularmente de países africanos de língua portuguesa?

O custo humano da inação no alívio da dívida é imediato e muito real. Os hospitais enfrentam frequentemente escassez de medicamentos essenciais, as escolas têm dificuldades em pagar ou formar professores/as, ou em fornecer materiais básicos de aprendizagem e transporte; a infraestrutura de água e energia continua subdesenvolvida ou em mau estado de conservação. Para as famílias, isto pode significar longas viagens até centros de saúde, salas de aula sobrelotadas, acesso limitado a água potável ou fornecimento irregular de eletricidade. As crianças podem ficar sem cuidados médicos, sem poder ir à escola ou até mesmo ir dormir com fome. Mais uma vez, isto acontece porque, em muitos países atingidos por crises de dívida pública, o pagamento da dívida externa consome mais recursos do que a saúde e a educação juntas, obrigando os governos a escolher entre pagar a dívida e garantir, por exemplo, que as crianças possam ter uma vida digna.

A situação é particularmente grave em alguns países africanos de língua portuguesa, como Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. Em Moçambique, o elevado pagamento da dívida limita a capacidade do governo de expandir a cobertura de saúde ou investir em agricultura resiliente às alterações climáticas, deixando os e as pequenas agricultoras especialmente vulneráveis ​​a eventos climáticos extremos (N’wetiand & Wemos, 2024). Em Angola, um dos países mais endividados do mundo, cerca de 66% das receitas públicas são utilizadas para o pagamento da dívida. Na prática, isto compete diretamente com a despesa pública em educação e proteção social (AMAN, 2025). Na Guiné-Bissau, a dívida pública subiu até aos 82,3% do PIB, com apelos a medidas de austeridade para “racionalizar” as despesas fiscais, o que inevitavelmente prejudica a qualidade dos serviços públicos, particularmente em áreas prioritárias como a saúde, a educação e as infraestruturas (Banco Mundial, 2025).

Estes exemplos mostram que a dívida não é um número abstrato ou um problema político no papel. Tem um impacto direto na vida diária de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo, limitando a capacidade dos governos de satisfazer até as necessidades mais básicas. Sem uma ação global coordenada, como a campanha Transformar Dívida em Esperança, corremos o risco de deixar para trás uma geração de crianças endividadas, cujos futuros estão comprometidos porque os países em que vivem são obrigados a pagar dívidas contraídas muito antes do seu nascimento.

O Relatório Jubilar: Um Plano para Enfrentar as Crises da Dívida e do Desenvolvimento e Criar as Bases Financeiras para uma Economia Global Sustentável e Centrada nas Pessoas, apresentado em junho de 2025, defende uma transição para uma economia global centrada nas pessoas, na qual a estabilidade financeira sirva o bem-estar humano, a redução da pobreza e a sustentabilidade ambiental. Para tornar esta transição possível, que medidas considera mais urgentes e politicamente viáveis no curto prazo, e que compromissos concretos espera dos principais credores e instituições multilaterais? Quais são os principais obstáculos políticos à implementação de soluções estruturais para o problema da dívida?

O principal obstáculo para enfrentar a crise da dívida global é, talvez sem surpresa, a falta de vontade política em múltiplas frentes. Sem que os governos e os grandes credores se comprometam com regras mais justas e soluções práticas, mesmo as melhores propostas permanecem apenas isso – propostas. Um dos compromissos mais imediatos e concretos seria a suspensão dos pagamentos da dívida em tempos de crise, quer sejam desencadeadas por catástrofes climáticas, conflitos ou choques económicos. Isto daria aos países devedores o fôlego necessário para proteger as suas populações e manter os serviços públicos essenciais. Esta abordagem tem sido defendida em discussões recentes da ONU, do Banco Mundial e do G20, estando já a ser promovida através de cláusulas de suspensão da dívida nos contratos de dívida.

Igualmente importante é a transparência de todos os lados – credores e países endividados. Para os credores, um registo público de credores privados esclareceria a quem se deve o quê, o que apoiaria e possibilitaria negociações mais claras. Ao mesmo tempo, os países em risco de sobre-endividamento necessitam de ferramentas coletivas mais robustas para monitorizar as suas finanças públicas. Uma forma de o fazer seria os países devedores criarem assembleias de cidadã/os para formulação de orçamentos participativos ou unirem-se, partilharem experiências, reforçarem a capacidade de negociação e incentivarem práticas de empréstimo responsáveis através de plataformas de países devedores, visando melhorar a governação e aumentar a transparência.

É essencial que as instituições multilaterais e os credores privados promovam uma maior partilha de riscos nas reestruturações da dívida. Atualmente, o fardo recai quase na totalidade sobre os países devedores e as comunidades que, em última análise, pagam o preço da dívida pública, muitas vezes em condições de grande desequilíbrio. Os obstáculos políticos continuam, no entanto, a ser significativos, uma vez que os credores podem resistir a medidas que possam reduzir os retornos a curto prazo ou criar precedentes para futuros empréstimos. Em conjunto, estas medidas – juntamente com muitas outras apresentadas no Relatório do Jubileu – apontam para uma economia centrada nas pessoas, em que a estabilidade financeira serve o florescimento humano em vez de o prejudicar.

Agora que terminou a fase inicial de mobilização, como avalia a campanha “Transformar Dívida em Esperança”? Que conquistas concretas foram alcançadas até à data e em que pontos acha que o impacto ficou aquém das expectativas?

Em termos de conquistas, a campanha conseguiu colocar a dívida definitivamente no mapa como uma questão moral e ética. Ela pôs as pessoas a falar sobre o assunto, amplificou as vozes dos/das mais afetados/as e lembrou os/as legisladores/as que a dívida não é apenas uma variável financeira, mas fundamentalmente uma questão de justiça e dignidade humana.

Neste sentido, a iniciativa Transformar Dívida em Esperança representou um ponto de partida sólido, reunindo mais de 200 organizações e mobilizando mais de 200 mil pessoas e grupos em todo o mundo através de uma petição global que apela ao alívio da dívida e à reforma do sistema financeiro internacional. Esta mobilização foi reforçada por acontecimentos paralelos em momentos políticos cruciais, mobilização popular e cartas inter-religiosas dirigidas às e aos líderes mundiais, atuando como uma frente unida.

Através disto, a campanha criou um espaço genuinamente ativo e sustentável onde as organizações católicas, os parceiros ecuménicos e inter-religiosos e a sociedade civil em geral podem trocar ideias, coordenar ações de defesa e pressionar pela justiça económica e em relação à dívida em importantes fóruns globais – desde as reuniões do Banco Mundial e do FMI em Washington, ao G7 no Canadá, à 4.ª Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Financiamento para o Desenvolvimento no Estado Espanhol, ao G20 na África do Sul e, internamente na Igreja, ao décimo aniversário da Laudato Si’. O simples facto de articular estas ligações num campo onde as vozes muitas vezes se fragmentam já foi uma conquista significativa.

Isto criou um terreno fértil para o que vem a seguir, olhando para os próximos anos, de 2026 a 2030, e para o horizonte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável que, como se sabe, estão muito longe de atingir as suas metas. Os parceiros da campanha estão agora a rever coletivamente o que alcançámos juntos até à data e onde devemos concentrar os nossos esforços daqui para a frente. A petição da campanha, disponível em inglês, francês e espanhol no website da Turn Debt into Hope, promove prioridades de defesa partilhadas essenciais e, na próxima fase, haverá provavelmente um trabalho mais aprofundado a ser feito a nível nacional e regional, traduzindo mensagens globais para as realidades locais, partilhando conhecimentos e desenvolvendo capacidades para que a mudança se possa consolidar em diferentes contextos em momentos críticos em 2026 e nos anos seguintes.

A campanha Jubileu 2000 teve um impacto significativo no cancelamento da dívida em vários países. Hoje, olhando para o futuro e para os resultados da campanha Transformar Dívida em Esperança, que sinais políticos ou institucionais lhe dariam esperança de que o espírito do Jubileu 2025 se possa traduzir em mudanças duradouras no sistema global da dívida? Destaque uma ou duas medidas prioritárias defendidas pela campanha que, se implementadas, poderão ter um impacto real a curto prazo.

O que me daria verdadeira esperança seria ver o alívio da dívida reconhecido não como caridade, mas como uma crise sistémica e uma questão de justiça – uma questão que necessita que todas as vozes, especialmente as das pessoas mais afetadas, sejam ouvidas de igual forma. Mais pessoas, organizações – e, lentamente, algumas instituições – estão a caminhar neste sentido, o que é encorajador.

Um sinal político claro seria uma séria revisão do quadro de reestruturação da dívida, para que mais países possam efetivamente beneficiar dele em tempos de crise, em vez de serem impedidos por barreiras técnicas ou políticas. A transparência é igualmente vital, estando os países que enfrentam as maiores pressões da dívida plenamente envolvidos nas decisões que afetam as suas populações.

Estamos também a acompanhar com interesse a Plataforma dos Países Devedores, acordada na 4.ª Conferência das Nações Unidas sobre Financiamento para o Desenvolvimento em Sevilha e anunciada noutra reunião da ONU em Genebra, no ano passado. Se se tornar um espaço real e funcional onde os países devedores possam partilhar conhecimentos, coordenar posições e reforçar o seu poder negocial, poderá começar a reequilibrar um sistema que há muito favorece os credores privados.

A campanha Transformar Dívida em Esperança já demonstrou que, quando as comunidades religiosas e a sociedade civil se unem, podem mudar o rumo da conversa e manter a esperança viva. Ver estas medidas postas em prática em 2026 sinalizaria que o espírito do Jubileu 2025 – justiça, solidariedade, dignidade humana – está realmente a começar a remodelar o sistema financeiro e a dívida global de forma duradoura.

Em Portugal, esta campanha foi adaptada pela Cáritas Portuguesa, FEC e IMVF – Instituto Marquês de Valle Flôr, no âmbito do projeto Coerência: o Eixo do Desenvolvimento.