A dívida odiosa do Haiti ou a armadilha da “dupla dívida”
CIDAC
Imagem: Rémi Kaupp, sob Licença CC BY-SA 3.0
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Esta ilha da região caribe tinha um nome, Ayti, um nome da língua Arawak dado pelo povo indígena Tainos que lá vivia. Em 1493, Colombo estabeleceu neste território a primeira colónia da América, La Navidad e o colono chamou a ilha de Hispaniola. A parte oeste da ilha, cerca de um terço da área total, foi colonizada pelos Franceses que a chamaram Saint-Domingue, uma francesização de Santo Domingo, em 1665.
Em cerca de um século, com recurso intensivo à mão de obra escravizada oriunda do continente africano, Saint Domingue torna-se um dos maiores fornecedores mundiais de açúcar. No final do século XVIII, a colónia “consome” 37% do total do comércio transatlântico de escravos e torna-se simultaneamente a economia de plantação mais lucrativa do mundo e a maior sociedade escravagista do Caribe, com cerca de 500.000 pessoas em situação de escravidão e 32.000 colonos!

1 Moeda francesa criada em 1803 em que cada franco integra 0,29 g de ouro. Esta moeda permite garantir o valor real de uma dívida no tempo, sendo composta de um volume real de matéria preciosa. 150 milhões de franco-ouro representam 43,5 toneladas de ouro!
2 Uma dívida odiosa é uma dívida contraída sem consentimento do povo, que não é dedicada ao bem da população e para a qual os credores não podiam ignorar que não ia servir os interesses do povo.
Em 1791 inicia-se a Revolução Haitiana, movimento de revolta dos escravos que levará à abolição da escravatura em 1793 e à independência do território em 1804, data em que Saint-Domingue volta a ser Haiti e torna-se o primeiro Estado fundado por antigos escravos. Mas como condição para o reconhecimento desta independência, a França exige o pagamento de uma indemnização, destinada aos antigos colonos, de um valor de 150 milhões de Franco-ouro1, pagável em 5 prestações de 30 milhões. Sem capacidade de honrar a primeira prestação desta dívida, em 1825, Haiti vira-se para a banca, francesa, para solicitar um empréstimo. Dos 30 milhões emprestados, Haiti só receberá 24, o empréstimo sendo submetido a uma comissão de 6 milhões. Com taxa de 6% e duração de 25 anos, Haiti pagará cerca de 3 vezes o valor emprestado só em juros… Em 1911, em cada 3 dólares de receita fiscal, Haiti dedicava 2,53 dólares ao serviço da dívida…
Seguiram-se vários outros empréstimos contraídos junto da banca francesa e também americana, na sequência da invasão e dos 19 anos de ocupação do país pelos Estados Unidos, entre 1915 e 1934. A dívida da independência, juros incluídos, só será saldada em 1947. Foram cerca de 150 anos de submissão a uma dupla dívida, uma dívida histórica, politicamente imposta pelo Estado francês, para indemnizar escravagistas, e uma dívida financeira aos bancos que financiaram o pagamento da primeira. Duas dívidas odiosas2 que permitiram à antiga potencia colonial manter o seu controlo sobre o país e impediram qualquer possibilidade de desenvolvimento.
Segundo o economista Thomas Piketty, a França deve cerca de 30 mil milhões de dólares ao Haiti, valor que inclui a dívida, o serviço da dívida assim como as perdas de crescimento e de desenvolvimento geradas pela dedicação das receitas públicas para o pagamento de uma dívida indevida.
“Impor uma indemnização a escravos vitoriosos sobre seus senhores… é fazê-los pagar em dinheiro aquilo que já pagaram com o próprio sangue.”
Victor Schœlcher, político, jornalista e abolicionista francês