Educação para a economia social e solidária:

um dispositivo de transmissão, de transformação e de educação para mais cooperação no meio escolar?

Lise Trégloze, CREAD Centre de recherche sur l’éducation, les apprentissages et la didactique, Universidade Rennes 2

Tempo aproximado de leitura: 28 minutos

A educação para a Economia Social e Solidária (ESS) faz parte da família das “educações para…”, da qual é difícil apreender todos os membros, dado que esta família é grande, diversificada e constantemente recomposta. Estas “educações para…” têm em comum vários desafios e conceitos e desenvolvem-se numa pluralidade de espaços sociais e físicos, com uma alternância de atividades dentro e fora do espaço ou do tempo escolar. Dos campos de férias à recente implementação das áreas educativas1, os espaços propícios às “educações para…” tendem a institucionalizar-se. As capacidades de acesso a esses espaços e aos atores que os animam influenciam fortemente as práticas.

Observa-se uma forte permeabilidade entre os atores da educação formal e não-formal2, que gravitam em torno das “educações para…” no meio escolar. Frequentemente, a atividade é co-construída numa dinâmica de parceria, erguendo a cooperação como valor partilhado e como modalidade de ação conjunta. Por vezes, ocorre por substituição, onde o/a professor/a entrega as chaves da sua aula à/ao interveniente durante o tempo da animação/atividade. Esta relação pode eventualmente ser conflituosa quando as legitimidades dos saberes e das competências pedagógicas dos atores se confrontam ou até se contradizem. Esta pluralidade de espaços e de atores envolvidos em torno de questões cientifica e socialmente vivas põe à prova as práticas docentes que devem conciliar os programas escolares, as incertezas e o “já existente” (déjà-là3). Cada disciplina escolar é então questionada sobre a sua capacidade de integrar estes novos objetos curriculares não identificados e de os trabalhar numa escala pluri- ou transdisciplinar. Os tempos de concertação ou de formação entre os diferentes atores envolvidos neste tipo de projetos são, portanto, preciosos para criar uma cultura comum e uma linguagem partilhada

1 Nota do Editor (NE): Em França, uma “área educativa” é um pequeno território natural gerido de forma participativa pelos alunos de uma escola básica ou secundária. Orientados pelos seus professores e por uma estrutura de educação ambiental, os alunos reúnem-se sob a forma de um «conselho de crianças» e tomam todas as decisões relativas à sua área educativa
2 NE: Os atores da educação não-formal são todos os indivíduos, grupos ou organizações da sociedade civil que promovem processos de aprendizagem intencionais e organizados fora do sistema escolar formal.
3 NE: No contexto educativo, o ‘déjà-là’ designa o conjunto de conhecimentos, representações, experiências, conceções e hábitos que uma aprendente (aluno/a ou estudante) possui antes de iniciar uma nova aprendizagem. É a base preexistente sobre a qual o educador / professor se deve apoiar, seja para a valorizar ou para a superar.

A educação para a Economia Social e Solidária

A educação para a Economia Social e Solidária é fruto do encontro entre a economia social e solidária, a educação popular e o ensino público, cujas histórias estão ligadas e se entrelaçam. No contexto francês, a educação para a ESS construiu-se nas últimas décadas através de duas dinâmicas.

1) Por um lado, a dos atores da educação que se envolvem na ESS – os atores da educação formal organizaram-se historicamente para responder às suas necessidades de maneira solidária e inovadora, através da criação de mutualidades ou de seguradoras, por exemplo. Alguns destes atores optaram por se envolver na associação L’ESPER (L’Économie Sociale Partenaire de la République) para a educação para e através da economia social e solidária, por meio de dois dispositivos:

  • A “Semana da ESS na escola”: organizada anualmente em março, a nível nacional, para descobrir o empreendedorismo coletivo e vivenciar em sala de aula os valores da Economia Social e Solidária. A cooperação é citada regularmente, tanto como um valor associado aos de cidadania, democracia e solidariedade (para os quais se deve sensibilizar os/as estudantes), quanto como uma modalidade para experimentar o “fazer juntos/as” em vez da competição.
  • “Minha Empresa de ESS na escola”: cujo objetivo é criar projetos em estabelecimentos escolares onde os e as alunas se organizam coletivamente, aprendem e experimentam a cooperação, com um fim último: o interesse geral.

2) Por outro lado, a dos atores da ESS que se envolvem na educação: certas organizações que se reivindicam da ESS (tanto no seu estatuto como no seu objeto) implementam atividades de sensibilização ou mobilização, complementares às suas ações comerciais e/ou de influência política. Estas atividades são, por vezes, agrupadas sob o termo “educações para…” e construídas tendo os e as jovens como público-alvo. Elas encontraram progressivamente o seu lugar no meio escolar à medida que os temas abordados (consumo responsável, comércio justo, etc.) também ganharam espaço nos programas ou nos dispositivos institucionais, como o da Educação para o Desenvolvimento Sustentável.

Investigação sobre um caso concreto de educação para a ESS na sua dimensão cooperativa

Propomos, a seguir, um olhar sobre as conclusões de uma investigação levada a cabo no contexto de um projeto europeu, os/as Jovens Embaixadores/as do Comércio Justo – JACE, realizado no quadro do programa ERASMUS+ numa parceria entre a Federação Artisans du Monde e o Liceu Belorme (Bordéus, França), OXFAM-Magasins du Monde e o Institut Saint Roch (Theux, Bélgica) e o CIDAC e a Escola Secundária José Gomes Ferreira (Lisboa, Portugal). A investigação incide, neste caso, sobre o contexto francês do projeto.

A metodologia de pesquisa consistiu numa combinação entre uma abordagem compreensiva4, baseada em observações participantes e entrevistas, e uma abordagem descritiva que visou confrontar as intenções explicitadas nos documentos de enquadramento das atividades com os discursos das pessoas que as vivenciaram. Embora se inscreva numa perspetiva sociológica baseada na análise dos jogos de atores5 e das interdependências entre os mundos sociais que se cruzam no âmbito das ‘educações para…’, a pesquisa integra também uma preocupação com a relação didática em curso nas iniciativas educativas observadas.

A atenção foca-se aqui nas potenciais relações de cooperação entre atores, nas fases de conceção, animação e avaliação de duas iniciativas de educação para a ESS realizadas em escolas secundárias profissionais em França. A cooperação deve ser aqui entendida no sentido de ‘fazer obra comum’ e ultrapassa a simples colaboração, sendo que a busca por valores partilhados e o objetivo de emancipação dos e das participantes prevalecem sobre a realização da atividade.

O inquérito combinou a análise da documentação produzida antes, durante e após o projeto animado entre 2015 e 2018 e entrevistas compreensivas realizadas em 2021, três anos após o fim do projeto com 23 participantes (14 ex-alunos/as e 9 membros da equipa educativa).

4 NE: Em ciências sociais, a abordagem compreensiva é uma abordagem metodológica e teórica que visa compreender o sentido que os atores atribuem às suas próprias ações, práticas e representações.
5 NE: A análise do jogo de atores (ou análise dos jogos de atores) é um método utilizado para compreender como diferentes pessoas ou grupos interagem no seio de uma determinada situação (uma empresa, um projeto, uma crise) para atingir os seus objetivos.

6 NE: Uma Unité Localisée pour l’Inclusion Scolaire (ULIS) é um dispositivo da educação nacional francesa que permite a escolarização de alunos com deficiência em escolas de ensino regular (do ensino básico ao secundário).

O projeto partiu da vontade de um liceu francês de responder ao concurso “Cooperação em matéria de inovação e de intercâmbio de boas práticas” da agência ERASMUS+ para implementar um projeto de educação para o comércio justo visando dois objetivos complementares: educar para uma cidadania global ativa e prevenir o abandono escolar.

Por imposição do programa ERASMUS+, foi necessário reunir associações e outros estabelecimentos de ensino à escala internacional para contribuir para o projeto idealizado pelo liceu. Mais do que uma cooperação, esta fase foi um encontro feliz entre organizações que partilhavam interesses convergentes e pessoas com capacidade para contribuir, nos prazos estabelecidos, para o árduo exercício de redação de uma candidatura a financiamento. Esta escrita coletiva foi, contudo, uma etapa fundamental na cooperação que viria a desenrolar-se durante o projeto.

Durante os três anos do projeto, foram realizadas em cada país atividades em torno dos meios de ação do comércio justo (venda, educação e advocacia) junto de um mesmo grupo de alunos/as, do 10.º ao 12.º ano. Estas atividades ocorriam em tempo de aulas, mas também em tempos dedicados, numa base voluntária. Progressivamente, os e as alunas envolvidas tornaram-se atores de pleno direito do projeto, cooperando com as suas professoras ou com as/os intervenientes das associações para a condução das atividades — por exemplo, na construção do programa dos encontros internacionais (cerca de dez durante o projeto) ou na dinamização de jogos sobre comércio justo junto de outros/as estudantes. Embora cada organização pudesse coordenar uma atividade, nenhuma foi realizada sem a participação ativa de outros parceiros, tanto em cada país como a nível internacional.

Embora o fim do financiamento europeu tenha desferido um golpe fatal em muitas atividades do projeto, a parceria entre as organizações continuou. Em França, o liceu e a associação contribuíram juntos para as necessidades de avaliação de cada estrutura, aproveitaram diversos eventos para valorizar as ferramentas experimentadas e candidataram-se novamente a um concurso ERASMUS+, a fim de dar continuidade ao projeto, estendendo-o nomeadamente a uma Unidade Localizada para a Inclusão Escolar6 (ULIS) do liceu e implementando-o à escala nacional.

Sem surpresa, a qualidade da cooperação está frequentemente dependente dos meios que lhe são dedicados ou que é possível mobilizar.

Resultados e perspetivas de investigação

A análise deste tipo de contextos educativos leva a considerar a educação para a ESS como uma educação que permite a transmissão de conhecimentos, e até de valores, “sobre”, “na” e “para” a cooperação. As diversas experiências de cooperação entre atores educativos durante estas atividades também podem revelar-se propícias às aprendizagens, nomeadamente para alunos/as em situação de dificuldade escolar. Inspirando-se na análise dos paradigmas da educação ambiental, podem constatar-se várias finalidades nos dispositivos de educação para a cooperação.

Uma educação “sobre” a cooperação – Consiste em transmitir informações sobre certas formas de cooperação e sobre os atores que as praticam: explicar o voluntariado, descrever as regras de governação da ESS, distinguir os selos do comércio justo, etc. Nas atividades observadas, estas informações encontraram facilmente o seu lugar nas disciplinas escolares, nomeadamente nas matérias profissionais das formações em vendas e gestão (estatuto jurídico das estruturas, informações nas embalagens dos produtos) ou nas línguas estrangeiras (tradução dos termos utilizados).

Uma educação “na” cooperação – A imersão dos e das alunas numa atividade de ESS traduz-se, na maioria das vezes, numa visita a um local simbólico desta cooperação presente no território (loja gerida por produtores/as, empresa de reinserção pelo trabalho, etc.). Se o “fora de portas” não for possível, a alternativa consiste em convidar os atores a darem o seu testemunho na escola. O objetivo é descobrir em que medida a ESS pode ser diferente daquilo a que os/as estudantes estão habituados/as (tanto na escola como fora dela): a cooperação em vez da competição, o interesse geral em vez do interesse individual, a ausência de fins lucrativos em vez da procura do lucro. Embora o encontro seja um primeiro passo, não é suficiente para vivenciar a cooperação. Os e as alunas são, por isso, desafiados/as para uma atividade concreta: organizar uma recolha de fundos em parceria com uma associação, vender a produção de um/a produtor/a local num mercado ou integrar produtos de comércio justo no bar do liceu.

Uma educação “para” a cooperação – Consiste em preparar e acompanhar os/as estudantes para que eles/as próprios/as decidam criar e dinamizar uma estrutura de ESS no seu estabelecimento de ensino (como a criação de uma Loja de Comércio Justo, por exemplo) e, posteriormente, na sua vida profissional, identificando a ESS como um setor de atividade para o qual podem contribuir. Trata-se de consciencializar os/as alunos/as de que os sistemas nos quais interagimos são fruto de decisões — e, portanto, de decisores — que herdamos e para as quais contribuímos de forma mais ou menos consciente. Assim, os/as e as alunas puderam ser colocados/as em situações de investigar quem decide o quê e agir sobre essas decisões, por exemplo: argumentar perante a direção da escola para solicitar meios para um projeto, ou mesmo apresentar uma resolução sobre o comércio justo a parlamentares europeus.

ESS e cooperação – algumas reflexões

Embora o discurso da educação para a ESS vise transformar a sociedade num paradigma sociocrítico, ela depara-se frequentemente com as fortes restrições que pesam sobre os atores educativos e com o difícil acesso aos meios humanos e financeiros necessários para que as atividades possam ir além de uma educação “sobre” a cooperação e a ESS. Este desfasamento entre os paradigmas invocados nos discursos e as práticas não é específico da educação para a ESS, sendo observado noutras “educações para…”, nomeadamente quando se trata de avaliar as suas práticas.

A dimensão pedagógica da educação para a ESS baseia-se numa aprendizagem cooperativa que integra o caráter multidimensional da pessoa em desenvolvimento e uma ligação estreita entre a teoria e o agir. No entanto, passar de uma transmissão de saberes “sobre” a cooperação para a apropriação de valores “para” a cooperação é um processo complexo e de difícil observação.

Os saberes e competências supostamente adquiridos pelos/as alunos/as no âmbito das iniciativas observadas dizem respeito ou às expectativas do meio escolar (praticar línguas estrangeiras, dominar técnicas de venda, trabalhar em grupo, expressar-se perante um público, etc.), ou aos objetivos defendidos pelos atores da educação para a ESS (desenvolver um olhar crítico sobre a economia e o consumo, conhecer as regras de funcionamento da ESS, compreender as fileiras do comércio justo, etc.).

E necessário insistir no “supostamente” adquiridos porque estes saberes e competências são muito difíceis de avaliar. No âmbito do projeto JACE, algumas das expectativas puderam ser confirmadas pela observação de situações em que os/as estudantes desenvolviam as competências que eles/as próprios/as se atribuíam ou que as suas professoras lhes reconheciam. Todos/as os/as alunos/as ativos/as no projeto obtiveram o seu diploma de ensino secundário (baccalauréat), indicador privilegiado — embora por vezes criticado — para validar as expectativas do liceu.

Três anos após o projeto JACE, os/as agora ex-estudantes entrevistados/as demonstram uma apropriação real do comércio justo, mas que permanece confusa, dado que o setor é complexo e as noções prévias são difíceis de desconstruir (confusões entre o biológico e o justo, entre as diferentes etapas das fileiras, entre caridade e solidariedade, etc.).

Loja de Comércio Justo na Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Benfica (Lisboa)

Os atores da ESS podem insistir no papel da educação para a ESS como ferramenta para melhor apreender o que a ESS transmite como valores e o projeto societal de justiça social e ecológica que ela reivindica.

Esta articulação entre saberes, valores e o agir, que ocorre nas “educações para…”, choca por vezes com o princípio de neutralidade visto frequentemente como devendo reger a prática dos/as professores/as. Sem entrar neste debate, é forçoso constatar que os valores ocupam um lugar importante nas intenções e nos discursos dos atores da educação para a ESS. Mas para que esta experiência de cooperação deixe de ser provisória e se torne aprendizagem e valor de referência, convém acompanhar os/as alunos/as num trabalho reflexivo para dar sentido a esta cooperação vivenciada, metas para cooperar novamente e sentirem-se capazes de as atingir. Já não bastando o saber/atuar, importa desenvolver um poder/atuar para que esta experiência da ESS capacite os/as alunos/as para continuarem a cooperar, na ideia de um contínuo experiencial.

Embora alguns/mas alunos/as sejam capazes de dar sentido às suas interações com o mundo (nomeadamente na descoberta do mundo do trabalho) e de definir metas (muitos/as querem envolver-se e ajudar), os e as jovens entrevistadas sentem-se mais desamparadas/os para as atingir, e as suas boas intenções são rapidamente travadas por diversos obstáculos às suas ações: “falta de tempo”, “falta de meios financeiros”.

Será a educação para a ESS uma ferramenta de transformação das relações entre atores educativos?

Observam-se transformações nas relações professor/a-aluno/a e entre alunos/as nas iniciativas educativas estudadas. Esta transformação das relações passa também por uma transformação física do espaço-aula: ou a atividade é feita completamente fora de portas, ou o/a professor/a ou o/a interveniente tentam reconfigurar o espaço da sala durante a atividade. Trata-se, por exemplo, de colocar as mesas em U para ser mais convivial, em contraste com uma configuração clássica da sala que não é percebida como tal, ou mesmo de revolucionar totalmente a forma escolar clássica, afastando o mobiliário para jogos de papéis ou para debates em movimento7. Nas situações observadas, novos atores são convidados a assegurar esta transmissão de conhecimentos, por vezes com, por vezes no lugar dos/das professores/as. A relação didática aluno/a-saber-professor/a é então perturbada pela chegada deste elemento exterior. Durante as intervenções, o/a professor/a coloca-se simbolicamente do lado dos e das estudantes que recebem a informação, embora mantenha, por vezes, uma postura específica de manutenção da ordem, permanecendo de pé em vez de sentado/a.

7 NE: O debate em movimento é uma técnica de animação ativa onde os/as participantes se posicionam fisicamente no espaço (a favor ou contra) em resposta a afirmações sobre um determinado tema. Esta técnica incentiva a participação de todos/as, o confronto de ideias e permite que os e as participantes mudem de posição, no sentido literal e figurado, caso os argumentos ouvidos sejam convincentes.

Os atores da ESS, que frequentemente são pouco visíveis, nomeadamente para o público jovem, encontram-se no centro do palco escolar. A palavra do/a convidado/a é muitas vezes mais escutada, pelo menos por uma boa parte dos alunos e alunas, especialmente quando o ator fala a partir do seu local de atividade, onde se sente mais à vontade para se expressar e onde os exemplos concretos do que afirma se desenrolam aos olhos de todos/as. Assim, alunos/as particularmente indisciplinados/as podem mudar de comportamento e tornar-se muito empenhados/as no contacto com intervenientes com quem se estabelece uma relação durante a atividade. Esta dimensão afetiva pode dar um novo sentido ao saber, como no caso deste aluno que indicou: “Para mim, o comércio justo tem a ver com o amor. Estás a ver o Emilio [um tecelão peruano]? Bem, sinto que o amo quando o vejo no seu tear. Então, tenho vontade que ele tenha uma vida digna“. Quanto aos alunos que se desligam da atividade, não é fácil, tanto para os/as intervenientes como para os/as professores/as, distinguir se se trata de um desinteresse específico pela intervenção ou de um desinteresse mais global pela escolaridade, à qual vão renunciando pouco a pouco.

Emilio Fernandez, artesão peruano da associação Ichimay Wari

As iniciativas observadas incentivam, geralmente, as trocas entre alunos/as. A construção conjunta de ferramentas de sensibilização, de discursos, de respostas a um questionário, são ocasiões em que a palavra dos pares pode ser ouvida, debatida e enriquecida. Esta cooperação na construção de conteúdos, na sua apropriação e na sua avaliação permite frequentemente, do ponto de vista dos atores, aprendizagens mais espontâneas e fluidas. As atividades permitem também trocas entre pessoas cujos estatutos podem, por vezes, esvanecer-se. Isto é particularmente observável quando a troca ocorre fora do contexto escolar, durante uma visita ou viagem, em momentos informais. O/a aluno/a troca então informações e opiniões com um dos seus professores ou professoras, numa relação de igual para igual, em reação a esta imersão numa outra realidade e noutros conhecimentos que nenhum domina mais do que o outro. Os atores não saem incólumes e os seus olhares evoluem, com alguns/as alunos/as a constatarem que “afinal, um prof é uma pessoa como outra qualquer”.

A entrada no ensino secundário coloca os/as estudantes em situações de aprendizagem mais solitárias. É claro que existem trabalhos de grupo, e mais raramente avaliações de trabalhos coletivos, mas, geralmente, trocar ideias com um/a colega ou inspirar-se na produção de um/a colega de carteira é suspeito ou mesmo passível de sanção. Experiências de co-avaliação puderam ser observadas no caso do projeto JACE. A avaliação das competências adquiridas durante o projeto foi objeto de uma atividade específica chamada “portefólio de competências”: uma ferramenta de autoavaliação acompanhada onde cada aluno/a documentava as competências identificadas com base nas atividades realizadas. O inquérito retrospetivo permitiu constatar que várias professoras mantiveram atividades de co-avaliação nas suas aulas, nomeadamente naquelas que tratam dos desafios da cooperação e da ESS para, segundo elas, “ter mais coerência”.

Poderá a educação para a ESS ser uma ferramenta para acompanhar a mutação da escola rumo a uma maior cooperação entre os atores que a compõem? Poderá a prática da cooperação em sala de aula, através da educação para a ESS, ser um instrumento para transformar a relação com a escola e com as aprendizagens, nomeadamente para os e as alunas com dificuldades escolares?

Experimentar a cooperação num sistema escolar essencialmente baseado na competição não é algo óbvio. Como defender e praticar a cooperação quando o objetivo individual prima sobre o coletivo, num contexto de comparação que tende à obsessão? No entanto, no seio desta competição acirrada, a emergência e o reconhecimento das “educações para…”, bem como as injunções para a sua generalização, deixam espaços para que dispositivos como os da educação para a ESS encontrem o seu lugar no sistema escolar. Para colocar estas “educações para…” em prática, as equipas educativas esperam, contudo, meios adaptados aos seus territórios e às populações escolares acolhidas.

Para a ESPER, a educação para e através da ESS é uma necessidade que participa no desenvolvimento crítico dos e das jovens alunos/as, a fim de se emanciparem do peso dos seus determinismos ligados ao género, origem social ou etno-racial, etc. A ambição é elevada e implicaria que estes determinantes sociais pudessem ser identificados e assumidos para melhor se emanciparem deles. Se a ideia subjacente à economia social e solidária é, de facto, libertar-se de um sistema económico considerado, no seu oposto, como individualista e injusto, a ligação entre este sistema e os determinantes sociais sofridos pelos alunos e alunas, especialmente os/as que vivem em situações de vulnerabilidade, é raramente explicitada. Não estando esta ligação claramente estabelecida, a emancipação — e, portanto, a cooperação — que decorreria de uma experiência de educação para a ESS não é necessariamente automática. A educação para a ESS, tal como as outras “educações para…”, pode, no entanto, ser considerada uma educação que emancipa, na medida em que permite um novo vínculo entre a economia e a sociedade, num contexto em que os e as alunos/as correm o risco de se sentirem impotentes face à violência e à multiplicidade das crises.

Este texto foi traduzido – tradução com ajuda de IA, com correção e revisão humana – e adaptado pelo CIDAC, sob a supervisão e com o aval da autora, a partir da comunicação: A educação para a economia social e solidária, um dispositivo de transmissão, transformação e educação para mais cooperação no meio escolar?. Lise Trégloze. 3.º Congresso Internacional da Teoria da Ação Conjunta em Didática: Cooperação e dispositivos de cooperação, Collectif Didactique pour Enseigner; CREAD Bretagne; Université Bretagne Occidentale; INSPE Bretagne, Nov 2023, Brest, França.

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