Muito para pensar, pouco para fazer?

Os Estudos de Desenvolvimento na encruzilhada do presente

Ana Luísa Silva, Professora Auxiliar Convidada no Iscte-IUL e co-fundadora da Oficina Global
Imagens: Manuel Moranta para ArtistsForClimate.org

Tempo aproximado de leitura: 13 minutos

A proposta feita no ano passado aos alunos e alunas do Mestrado em Estudos de Desenvolvimento do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa era simples: mobilizar, em contexto de aula, ferramentas de Human-Centered Design (Design Centrado nas Pessoas) para desenvolver ideias de mudança com potencial para serem postas em prática no próprio Iscte. O ponto de partida e de inspiração seria um dos números ou um dos artigos da revista Outras Economias e, para além disso, o tema escolhido teria que estar claramente relacionado com os temas de desenvolvimento global estudados no mestrado. Este último requisito era mais fácil do que possa parecer: qualquer um dos temas debatidos na Outras Economias permite facilmente embarcar numa reflexão crítica e interdisciplinar sobre o conceito de ‘desenvolvimento’1.

1 Os Estudos de Desenvolvimento constituem um campo interdisciplinar dedicado à análise dos processos e resultados do “desenvolvimento”, entendido como mudança social, económica e política. Num texto de 2022, Andy Sumners relembra-nos que, longe de existir uma visão unificada sobre o que são os Estudos de Desenvolvimento, a área é hoje palco de diferentes abordagens — desde perspetivas centradas na ajuda e na redução da pobreza, até visões críticas e propostas de “desenvolvimento global” — que divergem quanto aos objetivos, escalas e possibilidades do ‘desenvolvimento’, conceito alvo de debate permanente. Esta diversidade coloca os Estudos de Desenvolvimento numa encruzilhada, entre a reformulação do seu objeto (do “Sul” para o “global”), a crítica das suas origens históricas e epistemológicas e a necessidade de responder a novos desafios complexos e transnacionais como a desigualdade, as migrações e a emergência climática.

Com pequenas variações, este foi o exercício que desenhamos e pusemos em prática, em colaboração com o CIDAC, desde 2023, em três ocasiões: uma na sede do CIDAC, aberta a estudantes universitários/as que se inscrevessem livremente; duas em contexto de sala de aula, com os/as estudantes do Mestrado em Estudos de Desenvolvimento do Iscte. A colaboração nasceu de duas preocupações cruzadas: da parte do CIDAC, a vontade de encontrar formas de usar a revista não só como estímulo ao debate, mas também à ação para a mudança, sobretudo de públicos mais jovens; da parte da coordenação do mestrado, a necessidade de ligar teorias à realidade e, ao mesmo tempo, de complementar um seminário (bastante teórico) sobre inovação e desenvolvimento com uma componente prática.

Como acontece tantas vezes (diria, até, na maior parte dos casos), o meu percurso na academia (sobretudo, como professora universitária) não só não foi planeado como foi moldado por experiências anteriores. Da minha experiência de trabalho no setor da cooperação para o desenvolvimento ficou a vontade de não esquecer que este campo das ciências sociais, muitas vezes seduzido pela beleza do debate intelectual em torno de grandes teorias e ideias, não pode esquecer a necessidade de compreender (de forma profunda) realidades concretas e vividas. Da minha investigação de doutoramento sobre inovação e desenvolvimento, ficou a urgência de procurar e pôr em prática alternativas para construir um mundo melhor. A experiência com o CIDAC no âmbito das Outras Economias foi uma das formas que encontrei de ligar a teoria à prática de uma forma ativa, em conjunto com os/as estudantes. Estes três momentos de colaboração – bem como as conversas e reflexões partilhadas durante o processo de preparação que os antecederam e também após a sua conclusão – são um bom exemplo do desafio que é ensinar Estudos de Desenvolvimento a partir de uma perspetiva crítica, quer do ponto de vista pedagógico, quer do ponto de vista da mobilização dos jovens universitários para participarem em ações de mudança concretas.

A primeira experiência, realizada na sede do CIDAC, foi um desastre: apesar da ampla divulgação, apareceram apenas três pessoas inscritas. Acabamos por realizar a atividade na mesma, com algumas adaptações, e experiência ajudou-nos a ‘afinar’ o exercício para as sessões posteriores. Já em contexto de sala de aula, os/as estudantes responderam, das duas vezes, de forma entusiasta ao desafio. Do exercício de 2025, com um pequeno grupo de oito estudantes, surgiram duas ideias. A primeira, inspirada pelo n.º 2 “Estado de Emergência: Justiça Climática e Justiça Económica”, propunha a criação do ‘ECOCâmbio’, um programa de intercâmbio nacional de intercâmbio com o objetivo de “promover a consciencialização dos/das estudantes, mas também proporcionar uma aprendizagem prática sobre temas contemporâneos relacionados com questões ambientais”2. A estrutura pensada pelas estudantes para o programa previa uma estrutura reconhecida formalmente pelo sistema de ensino (ou seja, que pudesse ser integrada no plano curricular e/ou diploma), em que os/as estudantes tivessem oportunidade de criar e implementar soluções para problemas reais identificados por organizações um pouco por todo o país. Para além de se tornarem mais conscientes e ativos/as relativamente às questões climáticas, os e as participantes do intercâmbio teriam também uma oportunidade de ganhar experiência profissional.

A segunda ideia tinha como ponto de partida o artigo “Anti-Colonialismo e ‘Desenvolvimento’”, do n.º 3 da revista, e tinha como objetivo abrir o debate sobre colonialismo e anti-colonialismo junto da comunidade estudantil do Iscte, sobretudo fora da sala de aula. Reconhecendo as dificuldades de participação dos/das estudantes em regime pós-laboral nas atividades extracurriculares e também o reduzido número de atividades organizadas em horário pós-laboral, a proposta dos e das estudantes passava por promover, dentro desse horário, vários tipos de atividades dedicadas ao tema: ciclos de cinema, exposições, djumbais3 académicos, palestras e conferências4. Mais do que um evento pontual, os estudantes imaginaram um programa coerente, capaz de criar um espaço regular de encontro e discussão em torno de temas frequentemente ausentes — ou apenas abordados de forma marginal, em algumas disciplinas de cursos como Economia Política, Sociologia ou Antropologia — no quotidiano académico. Ao fazê-lo, procuravam não só ampliar o debate, mas também questionar quem participa, quando participa e em que condições, trazendo para o centro da proposta algumas das tensões que atravessam a vida universitária contemporânea e que tinham identificado durante a fase de pesquisa com os e as colegas.

 

2 Estudantes autoras da proposta: Alexandra Albergaria, Beatriz Costa, Cossette Valencia e Sofia Conceição.
3 Djumbai (crioulo da Guiné-Bissau) significa encontro, conversa comunitária ou roda de partilha, convívios que promovem o debate crítico e uma forma de estar em comunidade.
4 Estudantes autores da proposta: Edson Incopté, Inussa Djaló, Iteleno Cunha, Josemil Mendes e Tcherno Baldé.

5 Segundo um artigo recente do Jornal de Notícias, os dados oficiais mais recentes (de 2024) mostram que nunca houve tantos/as estudantes com estatuto de trabalhador-estudante: 9,2 % do total de inscritos/as. O número tem vindo a aumentar todos os anos e as associações de estudantes denunciam o aumento de custos como a principal razão que leva os e as estudantes a optar por trabalhar enquanto estudam. O que estes dados não incluem são os/as estudantes que optam, por diversos motivos, por não pedir o estatuto de trabalhador-estudante – é muito provável que os números reais sejam bastante superiores.

O ponto alto do exercício foi, sem dúvida, a apresentação das ideias desenvolvidas, com a presença do Stéphane (em representação do CIDAC), durante as quais os/as estudantes explicaram também o seu processo criativo e as suas escolhas. Tal como já tinha acontecido na sessão do ano anterior, as apresentações foram uma oportunidade para se aprofundar o debate sobre os temas escolhidos, mas também refletir sobre a coerência entre objetivos e práticas (um ponto que muitas vezes fica à margem das discussões, ultrapassado pela vontade de, simplesmente, fazer). Foi também durante esta última sessão que se iniciou a reflexão sobre a possibilidade de dar continuidade às ideias, com o apoio do CIDAC e em coordenação com o Iscte. No entanto, tanto quanto sei, nenhuma destas propostas foi até hoje posta em prática.

Mais do que um resultado inesperado, este desfecho acaba por pôr em evidência questões importantes sobre o lugar destas experiências no ensino superior, sobre as expetativas dos estudantes e sobre a natureza (ou a transformação) da universidade enquanto espaço de debate e mobilização cívica. Por um lado, os e as estudantes abraçaram imediatamente o desafio e interessaram-se vivamente pela tarefa que lhes foi proposta (e com a própria revista Outras Economias). Mostraram-se também claramente capazes de identificar problemas relevantes, mobilizar conceitos discutidos em aula e desenhar propostas concretas e bastante coerentes, aprofundando os temas em discussão coletiva. Por outro lado, a passagem das ideias à ação revelou-se significativamente mais difícil.

É esta dificuldade que merece reflexão e que não pode ser dissociada de dois aspetos importantes: a transformação da universidade enquanto espaço de debate e partilha de conhecimento e a forma como os/as estudantes universitários vivem hoje os seus estudos. Nos últimos anos (e em particular após a pandemia de Covid-19), a participação presencial em formas tradicionais de expressão da vida académica (seminários, debates, aulas abertas, colóquios) diminuiu visivelmente. Esta diminuição da participação não se refere apenas a públicos externos, mas também à própria comunidade académica como um todo – professores/as, investigadores/as, estudantes. As razões serão muitas (e à margem do tema deste texto), mas é verdade que esta transformação tem impacto na forma como se vive a universidade e se constrói um sentimento de pertença e de comunidade.

Quanto aos e às estudantes, a pressão para acumular habilitações e competências é muita, para além se sentirem cada vez mais condicionados/as por uma gestão de tempo complexa entre estudo, trabalho e vida pessoal – o que os e as faz passar pela universidade com uma perceção crescente (e criadora de ansiedade) de que a experiência adquirida deve ser, acima de tudo, imediatamente capitalizável no mercado de trabalho5. Este segundo ponto ajuda a explicar o facto de um encontro aberto e gratuito (como o primeiro exercício que organizámos na sede do CIDAC) ter atraído poucos/as participantes. De facto, aquele convite à participação e à co-construção não tinha uma tradução imediata (ou claramente visível) em competências imediatamente relevantes para o currículo. Já a experiência em sala de aula foi imediatamente valorizada por trazer a prática ao percurso académico, ajudando a estabelecer pontes e a valorizar os conhecimentos adquiridos (o exemplo da proposta ECOCâmbio é também uma boa ilustração desta necessidade sentida pelos/as estudantes).

É quando a aula (necessária para a obtenção de competências, mas também de uma habilitação académica) termina que o passo seguinte se torna complicado, competindo com outras necessidades mais imediatas, nomeadamente a necessidade de trabalhar (para continuar a estudar) e a urgência em adquirir outras competências e habilitações (para conseguir o trabalho ideal). A estas dificuldades podemos acrescentar o frágil sentido de comunidade hoje vivido na universidade – algo que a própria pesquisa conduzida pelos/as estudantes em torno do tema do anti-colonialismo evidenciou, ao revelar a perceção de escassez de momentos regulares de encontro, debate e participação para além do espaço formal da aula.

A colaboração entre o nosso mestrado e o CIDAC a partir da Outras Economias acaba por tornar visível uma tensão central e estrutural no ensino dos Estudos de Desenvolvimento atualmente: a dificuldade de transformar reflexão crítica em ação concreta, num contexto em que os percursos académicos são cada vez mais fragmentados e condicionados por exigências e condicionantes externas. Se a universidade continua a ser um espaço privilegiado para pensar o mundo cada vez mais complexo em que vivemos, a sua capacidade de mobilizar para a transformação desse mesmo mundo é hoje menos evidente, tanto fora como dentro da sala de aula. A minha experiência diz-me que iniciativas como a nossa não resolvem o problema, mas ao torná-lo visível permitem-nos continuar a procurar formas alternativas de potenciar a capacidade transformadora da universidade – só com imaginação e com abertura à sociedade será possível continuar o nosso caminho enquanto educadores e educadoras para a mudança.

Experiências Inspiradoras

A Economistas Sem Fronteiras é uma organização não governamental de desenvolvimento que reúne pessoas interessadas na construção de uma economia justa, equitativa e sustentável. Foi fundada em 1997 por um grupo de professores/as universitários/as ativamente empenhados/as e preocupados/as com a desigualdade e a pobreza. Trabalham em Educação para o Desenvolvimento, cooperação, finanças éticas, na promoção da Economia Social e Solidária, entre outros campos ligados à(s) economia(s).