Outras Economias:

pode uma revista ser Educação para o Desenvolvimento?

CIDAC

Tempo aproximado de leitura: 25 minutos

Um dia surgiu-nos uma ideia: fazer uma revista sobre economia(s) para não-economistas! A ideia em si era estranha por muitas razões. Primeiro, porque não queríamos falar sobre economia da forma como ela é normalmente falada, mas da pluralidade de visões e práticas de economia e de visões críticas relativamente às leituras económicas dominantes. Dois, não sendo economistas de formação que legitimidade tínhamos para fazer uma revista sobre este campo? A coisa complicou-se ainda mais: queríamos fazer uma revista sobre economia(s) numa perspetiva de Educação para o Desenvolvimento (ED). Mas o que é que a economia tem a ver com a ED?? E, sobretudo: quem vai ler uma revista que parece um objeto editorial não identificável?

O desafio – como está na moda dizer – era grande, mas fazia-nos e continua a fazer-nos todo o sentido. Neste texto, propomo-nos refletir sobre esta aventura iniciada no final de 2022 e que conta já com 9 números editados. A guiar esta reflexão estão quatro dimensões da ED, uma construção teórica emersa no seio da Rede de Educação para a Cidadania Global1 e na qual nos revemos:

 

Dimensão Pedagógica: corresponde a processos educativos criadores e críticos que partem da realidade quotidiana dos/das aprendentes, nos quais as metodologias e abordagens utilizadas são coerentes com o que são os próprios conteúdos de ED e com uma aprendizagem que se pretende transformadora.

Dimensão Colaborativa: corresponde a processos dialógicos, construídos de forma conjunta e colaborativa pelos/as intervenientes.

Dimensão Política: processos que permitem desenvolver e potenciar, a nível individual e coletivo, um olhar informado e crítico para uma postura ativa e transformadora sobre as causas estruturais das situações de injustiça e desigualdade existentes no mundo, a nível local e global.

Dimensão Ética: processos que partem de princípios e valores basilares para a ED como a justiça económica e social, a equidade e o Bem Comum.

Usamos estas dimensões não para mensurar o quanto a revista Outras Economias e os processos por ela desencadeados são ou não ED, mas enquanto instrumento que nos permite justamente refletir, e de alguma forma sistematizar e partilhar, intencionalidades, formas de fazer e de olhar, sobre esses processos como trilhos educativos.

Para cada dimensão, trazemos reflexões sobre dois planos:

– os processos que conduziram à construção de cada número (e que passaram pela constituição de conselhos editoriais para cada edição, os contactos com pessoas e entidades convidadas a contribuir com textos, vídeos, imagens) e das atividades que chamamos de “animação” (apresentações, círculos de leitura, oficinas de escrita, formações de professores/as, entre outros) e

– os conteúdos propriamente ditos de cada edição.

1 A Rede de Educação para a Cidadania Global foi criada em 2013, fruto do trabalho de construção conjunto entre educadores/as e professores/as, e esteve ativa até 2023. Pautou-se pelo trabalho em rede, de partilha de experiências, práticas, visões e reflexões sobre a Educação para o Desenvolvimento / Educação para a Cidadania Global (ED/ECG). Em 2016, a rede definiu quatro dimensões da ED/ECG a partir dessa visão partilhada. Estas dimensões não são definitivas nem unívocas, elas representam uma tentativa – entre muitas outras – de explicitar o que é o campo da ED/ECG.

 

A Outras Economias – um sentido ético

Como é que um projeto editorial e atividades correlatas transparecem e se orientam por princípios e valores como a justiça social, a equidade e o bem comum?

Um primeiro passo fundamental foi estabelecer de forma transparente o seu posicionamento, isto é, ao que vinha. Há uma proposta editorial clara relativamente à forma de fazer (colaborativa), e à visão sobre economia e o mundo como “crítica do modelo capitalista”. Assume-se assim não com uma ética jornalística que, entre outros valores, se pauta pela objetividade e pela imparcialidade (isto é, se se analisa um facto é necessário apresentar também o contraditório) mas como uma outra ética. Na Outras Economias, há uma visão plural, mas crítica, sem procura de uma pretensa neutralidade. O que não é igual a fazer propaganda ou proselitismo. Ter um posicionamento político crítico, pelo contrário, é fugir do dogmatismo.

Do ponto de vista das práticas, a dimensão ética passou por algo que parece óbvio mas não é dado, sobretudo em projetos ou atividades ligados a publicações: pagar às pessoas e entidades que participaram no conselho editorial; às que contribuíram para a revista com conteúdos (textos, bandas desenhadas, participação em podcast) e às que codinamizaram as atividades de animação, sempre que foi possível a nível orçamental.

Uma outra vertente – esta menos óbvia – das preocupações éticas prende-se com as tecnologias usadas. Também as tecnologias não são neutras (dedicou-se o número 4 da revista a esta reflexão). Assim, a ferramenta de trabalho editorial colaborativo utilizada foi uma plataforma “open source”, a coletivos.org, promovida por um coletivo que fornece espaço a outros coletivos na Internet, para debaterem, partilharem e trabalharem de forma livre, gratuita e colaborativa.

Para além da natureza política das tecnologias utilizadas, uma preocupação desde o início foi a da acessibilidade, tanto digital – da revista – como física – quando organizamos atividades. Tendemos a pensar que uma revista digital é acessível a todas as pessoas, descurando as pessoas invisuais, por exemplo. Pensámos em fontes de letra que facilitam os instrumentos de leitura automáticos, e em ter leituras audio, mas na realidade não conseguimos garantir uma acessibilidade plena do site da revista. O mesmo se aplica à acessibilidade física aos eventos a ela associados. A escolha dos espaços tem sido orientada sobretudo pela sua diversificação e para chegar a diferentes públicos.

No que toca à criação e divulgação de conteúdos, um outro aspeto ético e político a ter em conta é a propriedade intelectual. Pensámos a revista como um “comum”, um bem para ser usado, partilhado, por todos/as. Por isso, e porque outras pessoas também pensam o conhecimento com um bem comum – e para tal criaram a organização Creative Commons – a revista está licenciada com a licença Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional, o que quer dizer que os seus conteúdos podem ser utilizados mas não comercializados por outros/as, obrigando apenas à identificação da autoria.

A Outras Economias – um sentido político

Como potenciar um olhar, individual e coletivo, informado e crítico sobre as causas estruturais das situações de injustiça e desigualdade no mundo? Com uma intencionalidade clara de dar instrumentos – chaves de leitura – a quem acede à revista para que possa construir a sua própria leitura sobre o sistema económico. Uma intencionalidade que passa pela escolha dos temas (outras economias, justiça climática, neocolonialismo, acordos de comércio livre, dívida pública…). Alguns deles mais conhecidos, outros mais escondidos ou esquecidos, pelo menos no campo do Desenvolvimento, como a dívida externa, e situações que nos parecem menos conhecidas da sociedade portuguesa, como é o caso do Franco CFA ou da ocupação marroquina do território saharauri.

Intencionalidade que passa pelos conteúdos. As pessoas e coletivos ou organizações a quem foram pedidos contributos trouxeram olhares múltiplos e multifacetados para desconstruir questões que, muitas vezes nos são transmitidas como automaticamente boas ou neutrais como, por exemplo, a intensificação da monocultura do olival no Alentejo.

Para tal é importante reunir vozes e experiências diferentes, locais e/ou globais, especialmente do sul global. Nos primeiros números essas vozes são menos ouvidas, mas nas reflexões regulares que fazemos sobre a revista, percebemos que era fundamental (mas não instrumental) trazê-las. Este cuidado foi também tido no que toca ao equilíbrio entre vozes de mulheres e homens. Em muitos campos do conhecimento, economia incluída, a voz dos homens fala mais alto. Importa notar, no entanto, que não houve um reflexo mais abrangente relativamente ao género e à procura de vozes e olhares que vão além da dicotomia heteronormativa mulher / homem.

As leituras críticas sobre economia estão, geralmente, sob o chapéu da denominada “economia política”, cuja peculiaridade, face à dita ciência económica, é questionar os mecanismos estritamente económicos – como a circulação de moeda ou de bens – através das dimensões histórica, cultural, social, jurídica. Isto é, a economia política complexifica o que nos é geralmente dado como óbvio (por exemplo: o crescimento do PIB provoca o bem-estar da população). Na revista, fazem-se duas tentativas: trazer essa complexidade e, simultaneamente, identificar esses mecanismos ou tecnicismos económicos, explicando-os e desmistificando-os. Por exemplo, o que é a moeda, a dívida ou o que são as taxas aduaneiras? Não podemos afirmar que este empreendimento foi sempre bem sucedido ou que todos os conceitos e mecanismos económicos foram dissecados, mas é uma intencionalidade política e pedagógica.

A economia política, apesar de não se cingir à teoria (económica) marxista, é muitas vezes usada como seu sinónimo. E quando se fala da teoria marxista facilmente identificamos quem a usa ou nomeia com ideologias e partidos políticos. Confundir posicionamento político com identificação partidária é algo que não fazemos enquanto organização e em todos os processos em que nos envolvemos. O que não implica excluir pessoas ou coletivos que têm essa identificação da revista. Assim, o que procuramos são contributos de pessoas de diferentes quadrantes que, em comum, têm uma leitura crítica do sistema económico hegemónico capitalista.

Uma das questões com que nos confrontamos amiúde é: se vemos tudo através de uma lente crítica, se concluímos que tudo está mal, então o que fazer?! A dimensão política desta publicação é também trazer ao conhecimento de todos/as outros mundos possíveis, formas concretas de contrariar o estado das coisas, formas de fazer orientadas por outros sistemas de valores, que não o lucro e a exploração das pessoas e do Planeta – lutas locais, movimentos sociais, plataformas, redes. A isto corresponde o próprio título da revista: Outras Economias.

As outras economias são um campo vasto, com raízes no passado pré-capitalista de práticas económicas (trocas, reciprocidade, entre outras) reinventadas no presente. A cada tema, procura-se iluminar lutas e movimentos em diferentes pontos do mundo (por exemplo, o movimento pela justiça climática) e, numa secção fixa, apresentar de forma simples iniciativas, em Portugal, em que cada pessoa se pode envolver. Não abrindo mão igualmente da análise crítica dessas alternativas, porque a crítica é um movimento que faz avançar, e não necessariamente parar ou retroceder. Contrariar ou construir alteridade dentro de um sistema é uma tarefa hercúlea que exige muitas mãos, mentes e olhar atento.

A Outras Economias – um sentido colaborativo

E tem sido graças a muitas mãos, mentes, afetos e olhares atentos que a revista se corporiza enquanto processo e resultado educativo. Trabalhar (n)a dimensão económica do desenvolvimento e preservar uma visão crítica da economia e do desenvolvimento conduz-nos, enquanto organização, muitas vezes para um certo grau de autocentramento, de isolamento ou até de arrogância face aos outros.

A Outras Economias quis contrariar essa tendência, dentro de alguns parâmetros como acima mencionado. Quis e quer ser um projeto o mais possível partilhado e co-construído, dando espaço e reconhecendo o trabalho de outras pessoas, coletivos, organizações. O conselho editorial é um destes espaços colaborativos. A cada número convida-se um grupo, associação, ou conjunto de pessoas ligados ao tema escolhido para pensarmos e construirmos coletivamente, de fio a pavio, essa edição (ou seja, que conteúdos, quem convidar para contribuir, até aos moldes do lançamento do número e das atividades posteriores de animação). As decisões são tomadas em conjunto e todos e todas trazem ideias, sugestões, críticas.

Do feedback recebido, pensamos que esta prática colaborativa proporcionou algum grau de apropriação pelas pessoas que passaram pelo conselho editorial. A revista é uma iniciativa do CIDAC mas vai além da organização e cada número só é o que é por causa destas frutuosas colaborações.

A Outras Economias – um sentido pedagógico

Aqui entramos no cerne educativo e pedagógico da Outras Economias. A ótica da revista é muito simples: a economia faz parte da vida de todas as pessoas, logo o seu entendimento deve estar ao alcance de todas as pessoas. Podemos chamar a isso democratização do conhecimento. Portanto, o que se pretende é ampliar a difusão de informação e conhecimento através de um artefacto, uma revista, e de várias atividades associadas a cada número. Assim, a revista não termina na sua publicação, ela estende-se, é um ponto de partida para atividades educativas, que vão desde círculos de leitura, à participação em aulas de mestrado em estudos do desenvolvimento, a oficinas de escrita, online, em Lisboa e noutros pontos do país. Procura-se que estas atividades não sejam uma mera exposição dos conteúdos da revista, mas construir conhecimento coletivo a partir da leitura, da escrita, entre outros.

A revista tem sido ponto de partida para formação de professores/as do sistema formal de ensino e de educadores/as, em que se exploram os temas dos números através da lente da ED. Nessas formações, focamos igualmente num dos instrumentos da revista orientados de forma mais direta para intervenções educativas sobre cada tema: as propostas pedagógicas. Trata-se de propostas de atividades, adaptáveis a contextos de educação formal e não formal, que através de várias estratégias pedagógicas (jogos, “role playing”, experimentação, leitura e debate, pesquisa) procuram estimular a análise e reflexão sobre os temas.

A revista procura ser o mais pedagógica e acessível possível, não abrindo mão da complexidade. Tenta sim dar instrumentos para desconstruir e compreender a complexidade. E por acessível entendemos não apenas a linguagem em termos lexicais, mas também a procura de uma diversidade de linguagens que vão além de textos, tendo vídeos, podcasts, mas também poesia, música, etc, pensando nessas diferentes linguagens não apenas como enriquecimento mas como múltiplas possibilidades de fazer chegar os conteúdos a pessoas diferentes. Pensámos ainda que uma revista que busca a democratização de um saber que está, muitas vezes, “tecnificado” beneficiaria de um léxico permanentemente acessível e em permanente construção (alimentado com o léxico específico de cada tema), para apoiar a leitura / audição / visualização, mas até ao momento não nos foi possível concretizá-lo.

E como se garante o caráter pedagógico e acessível dos conteúdos construídos por outras pessoas? Elaborámos linhas-guia partilhadas e conversadas com as pessoas que contribuíram para cada número, explicitando essa intencionalidade. Uma parte do trabalho editorial é precisamente dialogar com os e as autoras, sempre que necessário, com sugestões concretas, para que os textos (nos vídeos e podcast, não há possibilidade de alteração dos conteúdos ditos) sejam o mais didáticos possível.

Não sabemos se os conteúdos da revista e as atividades associadas proporcionaram transformações na leitura de mundo e/ou nas ações das pessoas ou grupos que a ela têm tido acesso. Temos consciência que as atividades não envolveram um elevado número de pessoas, embora muitas sejam já participantes regulares. No entanto, o retorno que temos tido é muito positivo, sobretudo no que toca aos temas e à forma como os temas são tratados. Mas também às atividades de animação: alguns/mas docentes que frequenta/ram as formações testemunham mudanças de visão por exemplo, sobre o cooperativismo e, a satisfação de experimentar algumas das propostas pedagógicas como o jogo das cadeiras cooperativas com os seus/suas alunos/as no meio de uma aula de economia!

Para além das quatro dimensões da ED, gostaríamos ainda de refletir sobre outras três que nos parecem ressaltar na intencionalidade político-pedagógica da Outras Economias, mesmo que as encontremos embutidas nas dimensões anteriores: a dimensão Epistemológica, a dimensão do Desenvolvimento e a dimensão Educadores/as-Editores/as.

A Outras Economias – um sentido epistemológico

Por epistemologia (do grego episteme – conhecimento certo, ciência – e logos – discurso, estudo), entende-se: o estudo das ciências, a filosofia da ciência e/ou a formação/construção de conhecimento, em particular o conhecimento considerado como científico. Os campos que foram sendo historicamente construídos como ciência são vastos e a economia é um deles. A(s) ciência(s) têm os seus métodos, que permitem a sua validação e legitimidade. Estão também, muitas vezes, assentes ou são conotadas com valores, por exemplo, como o da neutralidade (confundido-se objetividade com neutralidade).

Fazer uma revista sobre economia, adjetivando-a como uma publicação de “não especialistas para não especialistas”, que visa democratizar o acesso ao conhecimento, desafia esse campo. Esta é uma intencionalidade clara: a construção do conhecimento vai muito além do que os parâmetros científicos ditam e o conhecimento científico deveria estar acessível a toda a sociedade, porque dela emerge.

Discutimos muitas vezes se deveríamos ou não, então, pedir contributos de especialistas. E decidimos fazê-lo, porque, por um lado, não desvalorizamos o saber académico, e por outro, porque achamos importante que esse conhecimento esteja disponível para todos/as (numa revista gratuita, não indexada, por exemplo). Os e as académicas que fazem parte da Outras Economias são, pelo menos a nosso ver, “académicos heterodoxos”, pessoas que estando na universidade ou na academia a entendem e a constroem como lugares abertos e não como torres de marfim. No trabalho editorial, sempre que possível, houve como já assinalado esse rico diálogo entre “especialistas” e “não especialistas”.

A visão crítica sobre o que é construir conhecimento alarga-se às atividades de animação. Não podemos afirmar que sempre o conseguimos, mas a intencionalidade é que cada círculo de leitura, cada apresentação ou formação, se constitua como um espaço onde todas as pessoas, independentemente da sua formação, da sua experiência, de estarem mais ou menos ligadas às temáticas tocadas, tragam e partilhem as suas visões, opiniões, as suas leituras, face ao que é proposto, construindo conhecimento em conjunto.

A Outras Economias – um sentido para o desenvolvimento

Desenvolvimento é uma noção contestada e para as quais têm surgido não só vários significados, como alternativas (o buen vivir, por exemplo). Assumimos que o desenvolvimento é, por um lado, uma lente de leitura das relações entre comunidades, países, blocos regionais, e, por outro, deve ser construído a partir do que as pessoas / comunidades querem para o seu presente e futuro, não se constituindo como uma trajetória única e inquestionável, dominante e hegemónica.

Como o temos tentado trazer e evidenciar na revista? Questionando o desenvolvimento quando é precisamente apresentado como inquestionável e dominante, e esforçando-nos por trazer as visões, em particular do sul global, sobre as trajetórias de boa vida ou de vida boa que sonham e procuram construir.

Sentimos, no entanto, que a dimensão do desenvolvimento enquanto inter/dependências entre comunidades, países, regiões, sejam elas económicas, políticas, ecológicas, culturais, nem sempre estive presente. Assim como também não temos como saber – e gostaríamos de o saber! – se as pessoas que leem / ouvem / veem a revista terão captado esta dimensão.

A Outras Economias – um sentido no ser Educador/a-Editor/a

Uma revista enquanto objeto educativo, mesmo com ramificações educativas concretas, é um lugar pedagogicamente diferente. É diferente porque pensamos nos públicos em abstrato, porque não os vamos ter ali connosco diretamente. Por isso, por essa mediação educativa, é-nos mais difícil captar os seus efeitos. É também mais difícil sermos confrontados/as diretamente, tal como acontece numa situação educativa mais convencional. Somos editores/as-educadores/as, uma hibridização deveras desafiadora, que esteve na génese do CIDAC, mas que há muito tempo não acontecia enquanto forma de trabalho da organização.

O percurso da Outras Economias impulsionou, assim, uma série de movimentos internos. Desde logo, a autoformação. Não somos especialistas, mas somos curiosos/as e ter/construir uma visão crítica a ser transmitida exige – enquanto processo de ED – informarmo-nos, pesquisarmos, posiconarmo-nos. Esse posicionamento foi mais intenso sempre que os processos dialógicos, no seio do conselho editorial e/ou com as pessoas que contribuem para a revista, geraram dissenso, desconforto, debate: o confronto acima assinalado. Ler e discutir os temas antecipadamente, e rever textos a publicar bem como escrever alguns (o CIDAC tem contribuído com alguns textos para cada número), é, simultaneamente, uma responsabilidade editorial e uma necessidade prática para nos prepararmos, para nos autoformarmos.

Foi assim que o CIDAC começou, há 52 anos: vivendo, debatendo, escrevendo, partilhando, voltando a debater, a escrever e a partilhar. Aprendendo imenso e a grande velocidade todos os dias, tentando ao mesmo tempo analisar as situações, confrontar com outros, “espalhar” propostas de ideias e de ações, acolher sugestões vindas de fora. Na altura, não tínhamos ouvido falar de ED, descobrimos esse conceito mais tarde. Mas recolher e tratar a informação, perspetivá-la criticamente, torná-la acessível e, ao mesmo tempo, responsabilizar os poderes pelas suas falhas em contribuir para a criação de sociedades menos desiguais e mais justas, era já ED. A solidariedade internacional, num tempo marcado pelas lutas de libertação em África, pelos regimes de apartheid na África do Sul, na Rodésia e na Namíbia, pelas ocupações ilegais de Timor-Leste e do Sahara Ocidental, era um foco central, uma ampliação do nosso “local”, que se interligava naturalmente com o nosso “global”.

Luísa Teotónio Pereira

Reatar com a história de produção de informação e conhecimento do CIDAC (acrónimo que, à data da sua constituição, significava Centro de Informação e Documentação Anti-Colonial) foi também uma intencionalidade da revista: unir informação e pensamento crítico (ED) à justiça económica. E, ao fazê-lo, permitiu-nos ter uma voz – coletiva e construída com muitos outros atores – sobre os temas que escolhemos, até agora, explorar.

A Outras Economias junta-se, assim, a outras publicações em que as organizações não-governamentais para o desenvolvimento (co)produzem conhecimento a partir das problemáticas com que se confrontam e/ou consideram relevantes conhecer e aprofundar: a Sinergias ED, a Mundo Crítico e a Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD.